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Eis, então, alguns
exemplos de problemas da filosofia. A filosofia desenvolveu ao longo da
sua vida milenar várias disciplinas distintas. Por vezes, alguns
problemas surgem em mais do que uma disciplina. Mas é bom ter uma ideia
dos diferentes tipos de problemas estudados por algumas disciplinas da
filosofia.
Comecemos pela
ética. A ética não estuda os preconceitos comportamentais - preconceitos
como a ideia católica de que os homossexuais não podem casar e que
ninguém deve ter relações sexuais antes do casamento. A ética nada tem a
ver com este tipo de coisas. Este tipo de coisas emana de um certo
código religioso de comportamentos, que pouco se relaciona na verdade
com a ética - é apenas uma manifestação de uma certa visão religiosa do
mundo. Faz-se por vezes uma distinção entre "moral" e "ética" querendo
reservar para esta última a acepção filosófica, ao passo que a primeira
se referiria aos costumes sociais. Mas esta distinção é artificiosa e
caiu em desuso desde há muito tempo.
A ética ocupa-se de
vários tipos de problemas bastante distintos. Os mais fáceis de
compreender são os da ética aplicada, que se ocupa de problemas como o
aborto e a eutanásia. Será o aborto um mal que deve ser proibido?
Repare-se que não se trata de saber se o aborto é um mal aos olhos de
Deus ou do Papa ou de qualquer confissão religiosa; trata-se de saber se
o aborto é, eticamente, e à luz da nossa razão, algo que deve ser
proibido, tal como o assassínio é proibido independentemente das
religiões. O que ocupa a reflexão filosófica não é apenas a tentativa de
dizer "Sim, o aborto é um mal" ou "Não, o aborto não é um mal". O que
distingue a reflexão filosófica é a fundamentação racional: os
argumentos que sustentam as nossas posições. O que importa são os
argumentos que se apresentam para dizer que sim ao aborto ou para dizer
que não. O trabalho da filosofia consiste em estudar esses argumentos e
avaliá-los criticamente. A filosofia é algo que cada um faz com a sua
própria cabeça, em diálogo crítico com os outros. A filosofia não
consiste em ler textos e "comentar" o que esses textos dizem. A
filosofia consiste em pensar nos mesmos problemas que são tratados
nesses textos, o que é muito, muito diferente.
Mas a ética
ocupa-se de outras questões menos óbvias. Por exemplo, o que quer dizer
"Matar inocentes é um mal" ou "Não devemos matar inocentes"? O que quer
realmente dizer a palavra "dever"? Este tipo de problema é enfrentado
pelo que se chama "metaética". A metaética ocupa-se da questão de saber
qual é a natureza do juízo ético. É a área mais geral e conceptual da
ética. Há várias teorias que tentam responder a este problema, algumas
delas tecnicamente bastante complexas e precisas.
A epistemologia é
outra disciplina da filosofia. Neste caso, trata-se de investigar vários
problemas relacionados com o nosso conhecimento. Uma vez mais, o
carácter conceptual da filosofia obriga a distinguir os problemas
filosóficos do conhecimento dos problemas psicológicos ou sociológicos
do conhecimento. Por exemplo, a psicologia cognitiva tem vindo a
conduzir várias investigações sobre o modo como os seres humanos
estruturam vários aspectos do conhecimento. Piaget, por exemplo,
procurou estabelecer etapas diferenciadas no desenvolvimento cognitivo
dos seres humanos. Os seus estudos estão hoje ultrapassados por
investigações mais recentes, mas tanto os seus estudos como os estudos
mais recentes não são estudos filosóficos nem têm interesse para a
filosofia. Os problemas estudados pela epistemologia ou pela filosofia
do conhecimento não se referem de modo algum ao fenómeno do conhecimento
tal como ele ocorre realmente nos seres humanos; os problemas da
epistemologia e da filosofia do conhecimento são mais gerais e de
carácter conceptual.
Um dos problemas da
epistemologia mais simples de apresentar é este: o que é o conhecimento?
O conhecimento distingue-se da mera opinião porque o conhecimento é
factivo -- isto é, não podemos conhecer falsidades, apesar de podermos
pensar falsidades. Mas o que é realmente o conhecimento? Não ser trata
apenas de opinião, porque as opiniões podem ser falsas mas o
conhecimento não. Será então que o conhecimento é apenas a opinião
verdadeira? Mas será que podemos dizer que os atomistas gregos sabiam
realmente que tudo é composto por átomos? Eles tinham realmente essa
opinião, e essa opinião veio a verificar-se séculos depois ser
verdadeira; mas, de algum modo, parece que eles não sabiam realmente que
tudo era composto de átomos -- apenas tinham essa opinião que, por
acaso, acabou por coincidir com a realidade. O que está em causa neste
problema é a definição de conhecimento -- algo que não pode
determinar-se recorrendo a estudos de natureza empírica.
Outro problema
importante na área da epistemologia é a questão da justificação do
conhecimento - perante um fragmento particular de pretenso conhecimento,
como podemos saber que se trata realmente de conhecimento e não de uma
ilusão? Por exemplo, todos pensamos que o mundo exterior é independente
de nós; mas que razões teremos para pensar isso? E não haverá razões
para pensar o contrário?
Reserva-se por
vezes o termo "epistemologia" para a filosofia do conhecimento
científico, usando-se o termo "gnosiologia" para a filosofia do
conhecimento em geral. Mas esta terminologia não é usada hoje em dia nas
grandes universidades do mundo inteiro, nem corresponde à realidade do
que se estuda quando se estuda epistemologia. A epistemologia é o estudo
filosófico de vários problemas relacionados com o conhecimento -
independentemente de se tratar de conhecimento científico ou de outro
qualquer tipo de conhecimento. É a filosofia da ciência que se ocupa de
vários problemas relacionados com o conhecimento científico.
Outra disciplina
filosófica é a metafísica, que se ocupa de outro tipo de problemas. Que
tipo de coisas existem no mundo? Admitindo que existem árvores e mesas e
pessoas, será que os números também existem? E as cores? E os conceitos,
como a justiça? Quantos tipos de existência há, se há mais do que um? E
quais são as categorias mais gerais da realidade? Como poderemos pensar
a identidade? Se ao longo de 10 anos formos substituindo as tábuas todas
de um bote de madeira, o bote de hoje será ainda o mesmo do que o bote
de há 10 anos? Mas se não é o mesmo, para onde foi o bote de há 10 anos
e quando deixou ele de existir?
É claro que há
muitos, muitos mais problemas da filosofia. Os problemas da filosofia
têm esta característica em geral: não se podem resolver recorrendo aos
métodos estabelecidos das ciências e implicam um uso forte da
argumentação. Os problemas da filosofia interpelam-nos e exigem-nos
argumentos. É claro que eu acho que o mundo exterior existe
independentemente de mim; mas como posso eu justificar esta opinião? A
filosofia é um pedido sistemático de justificações e essas justificações
são argumentos - argumentos de carácter conceptual e não argumentos de
carácter empírico.
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