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«Ainda não há muito
tempo, todas as matérias científicas eram consideradas parte da
filosofia. A filosofia da natureza [philosophy of matter] compreendia o
que agora chamamos química e física; a filosofia do espírito [philosophy
of mind] cobria as matérias da psicologia e áreas adjacentes. Em suma, a
filosofia era concebida de forma tão lata que cobria qualquer campo da
investigação teórica. Qualquer assunto em relação a cujo conteúdo fosse
possível apresentar uma teoria explicativa tornar-se-ia um ramo da
filosofia. Contudo, quando uma certa área de investigação atingia um
ponto em que uma teoria principal dominava e, por conseguinte, se
desenvolviam métodos uniformizados de crítica e confirmação, essa área
era separada da árvore mãe da filosofia e tornava-se independente.
Por exemplo, os
filósofos avançaram em tempos uma série de teorias para explicar a
natureza da matéria. Um deles afirmou que todas as coisas eram
constituídas por água; outro, de alguma maneira mais próximo das
concepções actuais, propôs a teoria de que a matéria era composta de
pequenos átomos homogéneos e indivisíveis. Tendo-se certas teorias
acerca da matéria, bem como os métodos experimentais para as testar,
tornado aceites entre a comunidade científica, a filosofia da natureza
deu origem às ciências da física e da química. Outro exemplo de um
problema filosófico convertido em problema científico é o da natureza da
vida. Numa determinada altura, a vida foi concebida como uma entidade
espiritual que entrava no corpo no momento do nascimento e o abandonava
no momento da morte; noutra altura, foi concebida como uma força vital
especial que activava o corpo. Hoje, a natureza da vida é explicada em
termos de bioquímica.
Assim, é uma
peculiaridade da filosofia que, tendo a argumentação e a disputa
conduzido à aceitação de uma certa teoria, acompanhada de uma
metodologia adequada para tratar uma certa temática filosófica, a teoria
e a metodologia se separem da filosofia e sejam consideradas parte de
outra disciplina. Certas temáticas estão actualmente em processo de
transição. Um exemplo disso é o campo da linguística e, em particular,
dentro desse campo, a temática da semântica. Os filósofos construíram
uma multiplicidade de teorias para explicar como podem as palavras ter
significado [meaning] e o que constitui o significado das palavras. As
explicações eram em termos de imagens, ideias e outros fenómenos
psicológicos. Actualmente, os filósofos e os linguistas explicam o que é
o significado em termos da função das palavras no discurso e das
características semânticas subjacentes, que desempenham na semântica um
papel semelhante ao desempenhado na física pelas características das
partículas atómicas. Neste campo não há uma distinção precisa entre
filósofos e linguistas. Ambos utilizam metodologias recentemente
desenvolvidas de análise gramatical e semântica para articular leis e
teorias que permitam explicar a estrutura e o conteúdo da linguagem. É
característico de uma área em processo de transição o facto de não ser
claro se um investigador dessa área é filósofo ou cientista. Em
filosofia, o desenvolvimento de uma área conduz muitas vezes à sua
independência e autonomia. É por esta razão que qualquer especificação
da filosofia em termos do seu objecto será, muito provavelmente,
controversa na actualidade e desactualizada no futuro.
Contudo, as
considerações anteriores explicam uma característica relativamente
constante da filosofia, a saber, o seu estado de incompletude [the
unsettled state of the art]. As questões estudadas em filosofia são
tratadas através de métodos dialécticos de argumentação e
contra-argumentação. E um aprendiz [student] pode às vezes sentir que,
depois de uma longa e árdua investigação, nada ficou estabelecido. Esta
impressão deve-se, em parte, ao facto de, num dado momento, a filosofia
parecer lidar com aqueles problemas intelectuais que ainda não foram
articulados de modo a permitir que uma única teoria e metodologia lhes
seja aplicada que sirva para a sua resolução. Quando o espírito humano
se defronta com algum problema intelectual complexo, sem que haja um
tratamento [approach] experimental uniforme e estabelecido para a
questão, é de esperar que o problema se encontre no domínio da
filosofia. Uma vez que a investigação intelectual tenha conduzido à
articulação de uma teoria uniforme com um método geralmente aceite de
investigação experimental, então, com toda a probabilidade, o problema
deixará de ser considerado parte da filosofia. Será, em vez disso,
atribuído a uma disciplina independente. Assim, por causa do seu próprio
êxito, a filosofia vai perdendo algumas das suas temáticas.
Contudo, esta
caracterização não deve levar-nos a pensar que todos os problemas
filosóficos são potencialmente exportáveis por meio de um processamento
bem sucedido. Algumas questões e problemas resistem a essa exportação em
virtude do seu carácter geral e fundamental. Por exemplo, em todos os
campos da investigação, as pessoas procuram o conhecimento. Mas é em
filosofia que se pergunta o que é o conhecimento, ou sequer se tal coisa
é possível [whether there is any such thing at all]. Tais questões
pertencem ao ramo da filosofia chamado epistemologia. Em alguns
domínios, na economia e na política [politics], por exemplo, estudam-se
as consequências causais de diversas acções e políticas [policies]. Em
filosofia, pergunta-se quais são as características gerais que tornam as
acções e as políticas [policies] justas [right] ou injustas [wrong].
Tais questões pertencem ao domínio da ética. Finalmente, críticos,
literatos, compositores e artistas perguntam se um certo objecto é uma
obra de arte. Os filósofos preocupam-se com a questão mais geral de
saber o que torna uma certa coisa um objecto de arte. Estas são as
questões da estética. Outras questões acerca da natureza [character] da
liberdade, do espírito e de Deus parecem ser objecto perene da filosofia
porque são questões simultaneamente muito básicas e muito gerais.
Além disso, um
tratamento bem sucedido de um problema dentro de determinada área pode
gerar novos problemas. Por exemplo, uma explicação de fenómenos físicos
em termos de leis e teorias levanta a questão de se saber se o movimento
dos corpos humanos, que fazem parte do universo físico, tem lugar de
maneira puramente mecânica, o que poria em causa a nossa impressão de
sermos agentes livres que determinam o seu próprio destino por
deliberação e decisão. Da mesma forma, o sucesso da neurofisiologia na
explicação do nosso comportamento levanta a questão de se saber se os
pensamentos e os sentimentos não serão senão processos físicos. Não
temos maneira de responder a estas perguntas através de um apelo directo
à experiência ou de uma teoria firmemente estabelecida. Em vez disso,
temos de confiar nos métodos da investigação filosófica - o exame
cuidadoso de argumentos apresentados em defesa de posições divergentes e
a análise dos termos importantes neles contidos.
Não há que recear a
escassez de temas filosóficos. O objecto [subject matter] da filosofia
apenas é limitado pela capacidade do espírito humano de colocar novas
questões e de reformular as antigas segundo um novo ponto de vista [in
some novel way]. Ao fazê-lo, fornecem-se novos conteúdos à única área
que recebe de braços abertos todos os órfãos intelectuais rejeitados
pelas outras disciplinas por causa da sua estranheza e dificuldade. A
filosofia é o lugar de acolhimento [home] dos problemas intelectuais com
os quais as outras disciplinas são incapazes de lidar. Em consequência
disso, está cheia do interesse intelectual da controvérsia e da disputa
que têm lugar nas fronteiras da investigação racional.»
CORNMAN, LEHRER,
PAPPAS, Pilosophical Problems and Arguments: An introduction,New York,
Macmillan Publishing Co., Inc., 19823, pp. 1-3 (tradução de Vasco
Casimiro).
http://www.terravista.pt/aguaalto/5159/PAPPAS.htm
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