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O problema consiste em reconciliar a
consciência quotidiana de nós mesmos como agentes, com a melhor teoria
que a ciência nos oferece sobre nós. O determinismo é uma parte do
problema; pode definir-se como a doutrina segundo a qual tudo o que
acontece tem uma causa. De uma maneira mais precisa, para qualquer
acontecimento a
há um qualquer estado anterior da natureza, N, e uma lei da
natureza, L, tal que, dada L, a seguir-se-á a N. No
entanto, se isto é verdade para todos os acontecimentos, é verdade para
acontecimentos como uma acção ou uma escolha minhas. Assim, a minha
acção e a minha escolha é determinada por um qualquer estado anterior
N e pelas leis da natureza L. Uma vez que o determinismo é
universal, o próprio estado N é determinado, e assim
regressivamente até chegarmos a acontecimentos em relação aos quais eu
não tenho obviamente qualquer responsabilidade (como os acontecimentos
anteriores ao meu nascimento, por exemplo). Logo, nenhuns acontecimentos
podem ser voluntários ou livres, se com isso queremos dizer que esses
acontecimentos sucedem unicamente em função da minha vontade, podendo eu
ter feito outra coisa. Se o determinismo for verdadeiro, existem estados
e leis antecedentes que determinam esses acontecimentos; como pode,
pois, dizer-se em verdade que eu sou o seu autor, ou que sou responsável
por eles? As reacções a este problema classificam-se em geral como: I)
determinismo radical. Esta posição aceita o conflito e nega que tenhamos
verdadeira liberdade ou responsabilidade. II) Determinismo moderado ou
compatibilismo. As reacções deste último tipo afirmam que tudo o que
podemos desejar de uma noção de liberdade é completamente compatível com
o determinismo. Em particular, mesmo que as nossas acções sejam
causadas, é muitas vezes verdade que poderíamos ter feito outra coisa se
o tivéssemos escolhido, o que pode ser suficiente para que possamos ser
responsabilizados ou acusados se o que fizemos era inaceitável (o facto
de os acontecimentos anteriores terem causado as nossas escolhas é tido
como irrelevante nesta opção). III) Libertismo. Esta posição advoga que
o compatibilismo é apenas uma fuga e que há uma noção mais substantiva e
real de liberdade que pode ainda ser preservada em relação ao
determinismo (ou ao indeterminismo). Em Kant, enquanto o eu empírico ou
fenoménico é determinado e não é livre, o eu numénico ou racional tem
capacidade para agir racional e livremente. Mas, uma vez que o eu
numénico existe fora das categorias do espaço e do tempo, esta liberdade
tem aparentemente um valor duvidoso. Outras respostas libertistas
incluem a sugestão de que o problema está mal colocado, afirmando-se por
vezes que não se consegue uma boa definição de determinismo; outras
vezes postula-se uma categoria especial de actos de volição incausados;
ou sugere-se, ainda, que há duas maneiras independentes, mas
consistentes, de ver um agente, a saber, a científica e a humanista, e
que só a confusão entre as duas faz o problema parecer premente. Nenhuma
destas respostas conseguiu uma aceitação geral. É um erro confundir o
determinismo com o fatalismo.
BLACKBURN, Simon (1997). Dicionário
de filosofia. Lisboa: Gradiva, pp. 255 e 256.
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