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OBJECTIVIDADE, JUÍZO DE VALOR E
ESCOLHA TEÓRICA
No penúltimo capítulo de um livro
controverso, publicado há quinze anos, fiz considerações sobre as
maneiras como os cientistas são levados a abandonar uma teoria ou
paradigma outrora aceites em favor de outros. Esses problemas de
decisão, escrevi, «não podem resolver-se por provas». Discutir o seu
mecanismo é, por conseguinte, falar «de técnicas de persuasão, ou de
argumentos e contra-argumentos numa situação em que não pode haver
qualquer prova». Nestas circunstâncias, continuei, «a resistência
durante toda a vida [a uma teoria nova] ... não é uma violação dos
padrões científicos... Embora o historiador sempre possa encontrar
homens — Priestley, por exemplo — que não foram razoáveis ao resistir
durante tanto tempo como o fizeram, não encontrará um único ponto em que
a resistência se torne ilógica ou não científica.» (1) Enunciados deste
género levantaram, obviamente, a questão de saber por que razão, na
ausência de critérios obrigatórios para a escolha científica, o número
de problemas científicos resolvidos e a precisão das soluções de
problemas individuais aumentaram tão acentuadamente com a passagem do
tempo. Ao confrontar este resultado, esbocei no capítulo final um certo
número de características que os cientistas partilham em virtude do
treino que lhes faculta a pertença a uma ou outra comunidade de
especialistas. Na ausência de critérios capazes de ditar a escolha de
cada indivíduo, argumentei, fazemos bem em acreditar no juízo colectivo
dos cientistas especializados. «Que melhor critério podia haver»,
perguntei retoricamente, «do que a decisão do grupo científico?» (2)
Vários filósofos lamentaram
observações como esta de uma maneira que continua a surpreender-me. Os
meus pontos de vista, dizia-se, fazem da escolha teórica «uma questão de
psicologia de massas» (3). Kuhn acredita, disseram-me, que «a decisão de
um grupo científico em adoptar um novo paradigma não se pode basear em
boas razões de qualquer espécie, factuais ou outras» (4). Os meus
críticos afirmam que os debates que rodeiam essas escolhas devem ser
para mim «meras exposições persuasivas, sem substância deliberativa»
(5). Afirmações deste género manifestam uma incompreensão total, coisa
que disse em comunicações dirigidas a outros fins. Mas estes protestos
transitórios tiveram efeitos insignificantes, e os mal-entendidos
continuam a ser importantes. Concluo que, para mim, é coisa do passado
descrever, mais extensamente e com maior acuidade, o que tinha em mente
quando proferi afirmações como as que comentei. Se tive relutância em
fazer isso no passado, ficou-se a dever em larga medida ao facto de eu
ter preferido dedicar a minha atenção a áreas onde os meus pontos de
vista divergem com maior acuidade dos pontos de vista correntemente
aceites, do que no que respeita à escolha teórica.
Começarei por perguntar: quais são as
características de uma boa teoria científica? Entre muitas das respostas
usuais, seleccionei cinco, não porque sejam exaustivas, mas porque são
individualmente importantes e em conjunto suficientemente variadas para
indicar o que está em jogo. Em primeiro lugar, uma teoria deve ser
exacta: quer dizer, no seu domínio, as consequências deduzíveis de uma
teoria devem estar em concordância demonstrada com os resultados das
experimentações e observações existentes. Em segundo lugar, uma teoria
deve ser consistente, não só internamente ou com ela própria, mas também
com outras teorias correntemente aceites e aplicáveis a aspectos
relacionados da natureza. Terceiro, deve ter um longo alcance: em
particular, as consequências de uma teoria devem estender-se muito para
além das observações, leis ou subteorias particulares, para as quais ela
estava projectada em princípio. Quarto, e relacionado de perto com o
anterior, deve ser simples, ordenando fenómenos que, sem ela, seriam
individualmente isolados e, em conjunto, seriam confusos. Quinto - uma
rubrica um tanto ou quanto menos padronizada, mas de especial
importância para decisões científicas reais -, uma teoria deve ser
fecunda quanto a novas descobertas de investigação: deve desvendar novos
fenómenos ou relações anteriormente não verificadas entre fenómenos já
conhecidos (6). Estas cinco características - exactidão, consistência,
alcance, simplicidade e fecundidade - são todas elas critérios
padronizados para a avaliação da adequação de uma teoria. Se não fossem,
ter-lhes-ia dedicado muito mais espaço no meu livro, porque concordo
inteiramente com a visão tradicional de que elas desempenham um papel,
quando os cientistas têm de escolher entre uma teoria estabelecida e uma
rival recente. Juntamente com outras do mesmo género, elas fornecem a
base partilhada para a escolha teórica.
Não obstante, os homens que devem
usar estes critérios encontram habitualmente duas espécies de
dificuldades ao escolher, digamos, entre a teoria astronómica de
Ptolomeu e a de Copérnico, entre as teorias de combustão do oxigénio e
do flogisto, ou entre a mecânica newtoniana e a teoria quântica.
Individualmente, os critérios são imprecisos: os indivíduos podem
legitimamente diferir quanto à respectiva aplicação em casos concretos.
Além disso, quando desenvolvidos em conjunto, mostram repetidamente
entrar em conflito uns com os outros; a exactidão pode, por exemplo,
ditar a escolha de uma teoria, o alcance pode ditar a escolha da sua
rival. Dado que estas dificuldades, sobretudo a primeira, também são
relativamente familiares, dedicarei pouco tempo à sua elaboração. Embora
a minha argumentação exija que as esclareça brevemente, as minhas
considerações começarão a afastar-se das ideias prevalecentes só depois
de ter feito essa elaboração.
Começarei pela precisão que, para os
fins presentes, inclui supostamente não só a concordância quantitativa,
mas também a qualitativa. Em última instância, ela revela-se como o mais
decisivo de todos os critérios: em parte, porque é menos equívoco do que
os outros, mas especialmente porque os poderes de previsão e
explicativos, que dependem dela, são características a que os cientistas
não estão dispostos a renunciar. Infelizmente, contudo, as teorias nem
sempre se podem discriminar em termos de precisão. O sistema de
Copérnico, por exemplo, não era mais exacto do que o de Ptolomeu, até
que foi drasticamente revisto por Kepler, mais de sessenta anos depois
da morte de Copérnico. Se Kepler ou qualquer outro não tivesse
encontrado razões para escolher a astronomia heliocêntrica, esses
melhoramentos na exactidão nunca teriam sido feitos e o trabalho de
Copérnico podia ter sido esquecido. É natural que a exactidão permita
discriminações, mas não de modo que conduzam regularmente a uma escolha
inequívoca. A teoria do oxigénio, por exemplo, era universalmente
reconhecida como explicando as relações de peso observadas nas reacções
químicas, uma coisa que a teoria do flogisto mal tentara fazer
anteriormente. Mas a teoria do flogisto, ao contrário da sua rival,
podia explicar que os metais eram muito mais semelhantes entre si do que
os minerais de que provinham. Uma teoria combinava-se melhor assim com a
experiência numa área, e a outra noutra área. Para escolher entre elas
com base na precisão, um cientista tem de decidir a área em que a
exactidão é mais significativa. Sobre essa questão, os químicos podiam
diferir, e assim o fizeram, sem violar nenhum dos critérios antes
delineados, ou quaisquer outros ainda a sugerir.
Por mais importante que possa ser,
por conseguinte, a exactidão por si mesma raramente ou nunca é um
critério suficiente para a escolha teórica. Outros critérios se devem
aplicar também, mas não eliminam os problemas. Para ilustrar, selecciono
apenas dois - consistência e simplicidade -, e examinarei como funcionam
na escolha entre os sistemas heliocêntrico e geocêntrico. Como teorias
astronómicas, tanto a de Ptolomeu como a de Copérnico eram internamente
consistentes, mas as suas relações com teorias afins noutros campos era
muito diferente. A Terra, em posição central e estacionária, era um
ingrediente essencial da teoria física recebida, um sólido corpo
doutrinário que explicava, entre outras coisas, como caíam as pedras,
como funcionavam as bombas de água e por que razão as nuvens se moviam
lentamente através do céu. A astronomia heliocêntrica, que exigia o
movimento da Terra, era inconsistente com a então existente explicação
científica destes e de outros fenómenos terrestres. O critério de
consistência, por si, por esta razão, falava inequivocamente a favor da
tradição geocêntrica.
A simplicidade, contudo, favoreceu
Copérnico, mas só quando avaliada de um modo muito especial. Se, por um
lado, os dois sistemas se comparassem em termos do trabalho de cálculo
real exigido para prever a posição de um planeta num tempo particular,
então revelariam ser substancialmente equivalentes. Tais cálculos eram
os que os astrónomos faziam, e o sistema de Copérnico não lhes oferecia
quaisquer técnicas de economia de trabalho; nesse sentido, não era mais
simples do que o sistema de Ptolomeu. Se, por outro lado, indagássemos a
quantidade de aparato matemático exigido para explicar, não os
movimentos quantitativos pormenorizados dos planetas, mas apenas os seus
aspectos qualitativos por grosso - prolongamento limitado, movimento
retrógrado, e semelhantes - então, como qualquer criança de escola sabe,
Copérnico só exigia um círculo por planeta, Ptolomeu dois. Neste
sentido, a teoria copernicana era mais simples, um facto vitalmente
importante para as escolhas feitas tanto por Kepler como por Galileu e,
portanto, essencial para o triunfo derradeiro do copernicanismo. Mas
este sentido de simplicidade não era o único à disposição, nem mesmo o
mais natural para os astrónomos profissionais, homens cuja tarefa era o
cálculo real da posição planetária.
Dado que o tempo é breve e
multipliquei os exemplos algures, afirmarei apenas aqui que estas
dificuldades na aplicação de critérios padronizados de escolha são
típicas, e que não emergem com menos violência em situações do século XX
do que nos exemplos mais antigos e melhor conhecidos, que acabei de
esboçar. Quando os cientistas têm de escolher entre teorias rivais, dois
homens comprometidos completamente com a mesma lista de critérios para
escolha podem, contudo, chegar a conclusões diferentes. Talvez
interpretem a simplicidade de maneira diferente ou tenham convicções
diferentes sobre o âmbito de campos em que o critério de consistência se
deva aplicar. Ou talvez concordem sobre estas matérias, mas difiram
quanto aos pesos relativos a ser acordados a estes ou a outros
critérios, quando vários deles se desenvolvem em conjunto. No que
respeita a divergências deste género, nenhum conjunto de critérios de
escolha já proposto é útil. Um pode explicar, como faz de modo
característico o historiador, por que razão homens particulares fizeram
escolhas particulares em tempos particulares. Mas, para este propósito,
devemos ir além da lista de critérios partilhados para as
características dos indivíduos que fizeram a escolha. Quer dizer, há que
lidar com características que variam de um cientista para outro sem com
isso arriscar minimamente a sua aderência aos cânones que tornam
científica a ciência. Embora tais cânones existam e devam ser
descobertos (sem dúvida, os critérios de escolha com que comecei estão
entre eles), não são por si suficientes para determinar as decisões dos
cientistas individuais. Para esse propósito, os cânones partilhados
devem estudar-se de maneiras que diferem de um indivíduo para outro.
Algumas das diferenças que tenho em
mente resultam da experiência anterior do indivíduo como cientista. Em
que parte do campo trabalhava ele, quando se confrontou com a
necessidade de escolher? Por quanto tempo trabalhou nele; qual foi o seu
êxito; e quanto do seu trabalho dependeu de conceitos e técnicas
impugnados pela nova teoria? Outros factores importantes para a escolha
ficam fora das ciências. A eleição de Kepler pelo copernicanismo ficou a
dever-se em parte à sua imersão nos movimentos neoplatónicos e
herméticos da sua época; o Romantismo Germânico predispôs aqueles que
afectou para o reconhecimento e a aceitação da conservação da energia; o
pensamento social britânico do século XIX teve uma influência semelhante
sobre a disponibilidade e aceitabilidade do conceito de Darwin da luta
pela existência. Ainda outras diferenças significativas são funções da
personalidade. Alguns cientistas põem mais ênfase do que outros na
originalidade e têm mais vontade, portanto, em tomar riscos; alguns
cientistas preferem teorias compreensivas, unificadas para soluções de
problemas exactos e pormenorizados de alcance aparentemente mais
restrito. Factores diferenciadores como estes são descritos pelos meus
críticos como subjectivos, e são postos em constraste com os critérios
partilhados ou objectivos de onde parti. Embora mais à frente ponha em
questão este uso dos termos, vou aceitá-los por enquanto. 0 meu ponto é,
portanto, que toda a escolha individual entre teorias rivais depende de
uma mistura de factores objectivos e subjectivos, ou de critérios
partilhados e individuais. Visto que os últimos em geral não aparecem na
filosofia da ciência, o meu realce sobre eles fez que a minha crença nos
primeiros não tivesse sido apercebida pelos meus críticos.
O que disse até aqui é, antes de
mais, apenas a descrição do que acontece nas ciências, em períodos de
escolha teórica. Como descrição, além disso, não foi contestada pelos
meus críticos que rejeitam, em vez disso, a minha asseveração de que
esses factos da vida científica têm importância filosófica. Aceitando
que existe o problema, começarei por isolar algumas diferenças de
opinião, embora pense que não sejam grandes. Começarei por perguntar
como é que os filósofos da ciência puderam negligenciar, durante tanto
tempo, os elementos subjectivos que, garantem eles, entram regularmente
nas escolhas teóricas reais feitas pelos cientistas individuais? Por que
razão estes elementos lhes parecem apenas um índice de fraqueza humana,
e não um índice da natureza do conhecimento científico?
Uma resposta a esta questão é,
naturalmente, que poucos filósofos, se mesmo algum, reivindicaram a
posse de uma lista de critérios quer completa, quer inteiramente bem
articulada. Durante algum tempo, por conseguinte, podiam esperar com
razão que uma investigação ulterior eliminasse as imperfeições residuais
e produzisse um algoritmo capaz de ditar uma escolha unânime e racional.
Até esta realização, os cientistas não teriam qualquer alternativa a não
ser fornecer subjectivamente o que ainda faltava à melhor lista corrente
de critérios objectivos. Que alguns deles ainda pudessem fazer isso,
inclusive com uma lista aperfeiçoada na mão, seria, então, apenas um
índice da inevitável imperfeição da natureza humana.
Esse género de resposta pode ainda
mostrar-se correcta, mas penso que já nenhum filósofo espera que o seja.
A procura de procedimentos de decisão algorítmicos continuou durante
algum tempo e produziu resultados poderosos e esclarecedores. Mas todos
esses resultados pressupõem que os critérios individuais de escolha se
podem enunciar sem ambiguidade e também que, se houver mais do que um,
uma função de peso apropriada estaria à disposição para a respectiva
aplicação. Infelizmente, onde a escolha em jogo é entre teorias
científicas, fizeram-se poucos progressos para o primeiro destes
desideratos e nenhuns para o segundo. A maior parte dos filósofos da
ciência deviam, por conseguinte, penso eu, olhar agora para o género de
algoritmo que se tem procurado tradicionalmente como um ideal
absolutamente inatingível. Concordo inteiramente, e de hoje em diante
considerá-lo-ei assim.
Um ideal, porém, para se manter
credível, exige alguma importância demonstrada pelas situações em que se
supõe aplicar. Ao assegurar que tal demonstração não exige quaisquer
factores subjectivos, os meus críticos parecem apelar, implícita ou
explicitamente, para a distinção bem conhecida entre os contextos de
descoberta e de justificação (7). Quer dizer, aceitam que os factores
subjectivos que eu invoco desempenham um papel significativo na
descoberta ou invenção de novas teorias, mas também insistem em que esse
processo inevitavelmente intuitivo fica fora dos limites da filosofia da
ciência e não tem importância para a questão da objectividade
científica. A objectividade entra na ciência, continuam eles, através
dos processos pelos quais as teorias são testadas, justificadas ou
julgadas. Esses processos não envolvem ou, pelo menos, não precisam de
envolver quaisquer factores subjectivos. Podem ser governados por um
conjunto de critérios (objectivos) partilhados pela totalidade do grupo
competente para julgar.
Já argumentei que essa posição não se
ajusta às observações da vida científica, e devo supor agora que isso me
foi concedido. O que está aqui em jogo é uma questão diferente: se esta
invocação da distinção entre contextos de descoberta e de justificação
fornece ou não uma idealização plausível e útil. Penso que não, e posso
defender melhor a minha posição sugerindo, em primeiro lugar, uma fonte
provável da sua eficácia aparente. Suspeito que os meus críticos foram
enganados pela pedagogia da ciência ou pelo que chamei algures ciência
do livro de texto. No ensino da ciência, as teorias são apresentadas
juntamente com aplicações exemplares, e essas aplicações podem ver-se
como provas. Mas não é essa a sua principal função pedagógica (os
estudantes de ciência são desalentadoramente propensos a receber a
palavra dos professores e dos textos). Sem dúvida, algumas delas faziam
parte dos dados na época em que as decisões reais estavam a ser tomadas,
mas representam apenas uma fracção das considerações importantes para o
processo de decisão. O contexto da pedagogia difere quase tanto do
contexto de justificação como do contexto de descoberta.
Uma documentação completa sobre esse
ponto exigiria uma argumentação mais longa do que a que é adequada aqui,
mas merecem menção dois aspectos do modo como os filósofos em geral
demonstram a importância dos critérios de escolha. Tal como os manuais
de ciência pelos quais muitas vezes se modelam, os livros e os artigos
sobre filosofia da ciência referem-se várias vezes às famosas
experiências cruciais: o pêndulo de Foucault, que demonstra o movimento
da Terra; a demonstração da atracção gravitacional de Cavendish; ou a
medida da velocidade relativa do som na água e no ar, de Fizeau. Estas
experiências são paradigmas razoáveis para a escolha científica;
ilustram os géneros mais eficazes de argumentos que podiam estar à
disposição de um cientista, hesitante sobre qual das duas teorias devia
seguir; são os veículos para a transmissão de critérios de escolha. Mas
também têm outra coisa em comum. Na altura em que foram realizadas,
nenhum cientista precisava, ainda, de ser convencido da validade da
teoria, cujos resultados se costumam agora demonstrar. Essas decisões
desde há muito que se tomaram com base em dados muito mais equívocos. As
experiências cruciais e exemplares, a que os filósofos se referem várias
vezes, só teriam sido historicamente importantes para a escolha teórica
se tivessem produzido resultados inesperados. O seu uso, enquanto
ilustrações, fornece uma economia necessária para a pedagogia da
ciência, mas dificilmente esclarecem o carácter das escolhas que os
cientistas são levados a fazer.
As ilustrações filosóficas
padronizadas da escolha científica têm outras características
perturbadoras. Os únicos argumentos discutidos são, como indiquei
anteriomente, os favoráveis à teoria que, de facto, acabou por triunfar.
Lemos que o oxigénio podia explicar as relações de peso; o flogisto,
não; mas não se diz nada sobre o poder da teoria do flogisto ou sobre as
limitações da teoria do oxigénio. As comparações da teoria de Ptolomeu
com a de Copérnico procedem do mesmo modo. Talvez estes exemplos não
devessem mencionar-se, já que põem em contraste uma teoria desenvolvida
com uma que ainda está na infância. Mas, não obstante, os filósofos em
geral usam-nas. Se o único resultado de tal atitude fosse a
simplificação da situação de decisão, nada teríamos a objectar. Mesmo os
historiadores não pretendem lidar com a total complexidade factual das
situações que descrevem. Mas estas simplificações desvirtuam a situação,
fazendo crer que a escolha é completamente a problemática. Quer dizer,
eliminam um elemento essencial das situações de decisão que os
cientistas devem resolver, se quiserem que o campo respectivo vá em
frente. Nessas situações, há sempre pelo menos algumas boas razões para
cada escolha possível. Então, as considerações importantes para o
contexto da descoberta são também importantes para a justificação; os
cientistas que partilham os interesses e as sensibilidades do indivíduo
que descobre uma teoria nova aparecem provavelmente, ipso facto, com
desproporcionada frequência, entre os primeiros apoiantes dessa teoria.
Por isso, tem sido difícil construir algoritmos para a escolha teórica,
e também por isso é que essas dificuldades têm parecido tão
completamente dignas de resolução. As escolhas que apresentam problemas
são as que os filósofos da ciência precisam de compreender.
Procedimentos de decisão filosoficamente interessantes devem funcionar
onde, na sua ausência, a decisão pode ainda estar em dúvida.
Tudo isto já o disse antes, ainda que
só resumidamente. Há pouco, contudo, reconheci outra fonte mais subtil
da plausibilidade aparente da posição dos meus críticos. Para a
apresentar, descreverei rapidamente um diálogo hipotético com um deles.
Ambos concordamos em que cada cientista escolhe entre teorias rivais, ao
desenvolver alguns algoritmos bayesianos que lhe permitam calcular um
valor para p (T, E), isto é, para a probabilidade de uma teoria T
baseada em provas empíricas E, disponíveis quer a ele, quer aos outros
membros do seu grupo profissional num determinado período de tempo. As
«provas empíricas», além disso, são interpretadas por ambos de forma
ampla para incluir considerações como a simplicidade e fecundidade. O
meu crítico afirma, contudo, que só existe um desses valores para p, o
que corresponde à escolha objectiva, e acredita que todos os membros
racionais do grupo devem chegar a ela. Eu afirmo, por outro lado, pelas
razões dadas anteriormente, que os factores que ele chama objectivos são
insuficientes para determinar qualquer algoritmo. Em vista da discussão,
concedi que cada indivíduo tem um algoritmo e que todos os seus
algoritmos têm muito em comum. Não obstante, continuo a manter que os
algoritmos dos indivíduos são, em última instância, todos diferentes, em
virtude das considerações subjectivas com que cada um deve completar os
critérios objectivos, antes de se poderem realizar quaisquer cálculos.
Se o meu crítico hipotético for liberal, pode agora conceder que estas
diferenças subjectivas desempenham um papel na determinação do algoritmo
hipotético em que cada indivíduo confia durante os estádios iniciais da
competição entre teorias rivais. Mas ele provavelmente também
reivindicará que, enquanto as provas aumentam com a passagem do tempo,
os algoritmos de indivíduos diferentes convergem para o algoritmo da
escolha objectiva, com que se iniciou a sua apresentação. Para ele, a
unanimidade crescente das escolhas individuais é testemunho da sua
objectividade crescente e, portanto, da eliminação de elementos
subjectivos do processo de decisão.
É o suficiente quanto ao diálogo que,
naturalmente, imaginei, para revelar a inconsequência subjacente a uma
posição aparentemente plausível. Só precisam de convergir, enquanto os
testemunhos mudam com o tempo, os valores de p que os indivíduos
calculam a partir dos respectivos algoritmos individuais. De modo
concebível, esses algoritmos tornam-se também mais parecidos com o
tempo, mas a unanimidade derradeira da escolha teórica não fornece
qualquer prova de que isso seja assim. Se se exigem factores subjectivos
para explicar as decisões que inicialmente dividem a profissão, eles
ainda devem estar presentes mais tarde, quando a profissão chega a
acordo. Embora não discuta aqui o ponto, a consideração das ocasiões em
que uma comunidade científica se divide sugere que eles, na realidade,
permanecem.
A minha argumentação dirigiu-se, até
aqui, a dois pontos. Primeiro, forneceu provas de que as escolhas que os
cientistas fazem entre teorias rivais dependem não só dos critérios
partilhados - os que os meus críticos chamam objectivos -, mas também
dos factores idiossincráticos, dependentes da biografia e da
personalidade individuais. Estes últimos são, de acordo com o
vocabulário dos meus críticos, subjectivos, e a segunda parte do meu
argumento tentou impedir alguns caminhos prováveis de negação das suas
implicações filosóficas. Vou passar agora para uma abordagem mais
positiva, voltando rapidamente à lista de critérios partilhados – pré
cisão, simplicidade e semelhantes -- com que comecei. A eficácia
considerável desses critérios não depende, como quero agora sugerir, de
serem suficientemente articulados para ditar a escolha de cada indivíduo
que os subscreve. Contudo, se fossem articulados nessa medida, deixaria
de funcionar um mecanismo comportamental fundamental para o avanço
científico. O que a tradição considera como imperfeições elimináveis nas
suas regras de escolha, considero-o em parte como resposta à natureza
essencial da ciência.
Como acontece muitas vezes, começo
pelo óbvio. Critérios que influenciam decisões, sem especificar o que
devem ser essas decisões, são familiares em muitos aspectos da vida
humana. Em geral, contudo, não se chamam critérios ou regras, mas
máximas, normas ou valores. Consideremos as máximas, em primeiro lugar.
O indivíduo que as invoca quando é urgente escolher, acha-as em geral
frustrantemente vagas e, muitas vezes, também em conflito umas com as
outras. Comparem «Quem não arrisca não petisca» com «Homem prevenido
vale por dois», ou comparem «Mão posta ajuda é» com «Tudo o que é de
mais deita por fora». Individualmente, as máximas ditam escolhas
diferentes; em conjunto, não ditam nenhuma. Todavia, ninguém sugere que
não seja importante fornecer etiquetas como estas às crianças, na sua
educação. Máximas opostas modificam a natureza da decisão a ser tomada,
acentuam os resultados essenciais que apresentam e apontam para os
aspectos restantes da decisão, para os quais cada indivíduo deve assumir
a responsabilidade por si próprio. Uma vez invocadas, máximas como estas
modificam a natureza do processo de decisão e podem assim mudar o seu
resultado.
Os valores e as normas fornecem mesmo
exemplos mais claros de orientação eficaz, na presença do conflito e do
equívoco. Melhorar a qualidade de vida é um valor, e um carro em cada
garagem foi em tempos a norma que daí se seguiu. Mas a qualidade de vida
tem outros aspectos, e a velha norma tornou-se problemática. Ou ainda, a
liberdade de expressão é um valor, mas também a preservação da vida e da
propriedade. Na aplicação, ambos entram muitas vezes em conflito, de
modo que o exame de consciência judicial, que ainda permanece, se exigiu
para proibir comportamentos como a incitação à revolta ou gritar «Fogo!»
num teatro repleto. Dificuldades como estas são uma fonte adequada para
a frustração, mas raramente culminam em acusações de que os valores não
têm qualquer função, ou em apelos para o seu abandono. Esta resposta
está excluída para a maior parte de nós devido a uma aguda consciência
de que existem sociedades com outros valores, e de que estas diferenças
de valores resultam em outros modos de vida, em outras decisões sobre o
que se pode e não pode fazer.
Naturalmente, estou a sugerir que os
critérios de escolha, com que comecei, funcionam não como regras, que
determinam a escolha, mas como valores, que a influenciam. Duas pessoas
profundamente empenhadas nos mesmos valores podem, contudo, em situações
particulares, tomar decisões diferentes como, de facto, o fazem. Mas
essa diferença de resultado não devia sugerir que os valores que os
cientistas partilham têm menos importância crítica do que as suas
decisões ou o desenvolvimento do empreendimento em que participam.
Valores como precisão, consistência e alcance podem mostrar-se ambíguos
na aplicação, tanto individual como colectivamente; isto é, podem ser
uma base insuficiente para um algoritmo partilhado de escolha. Mas eles
especificam muita coisa: o que cada cientista deve considerar ao atingir
uma decisão, o que pode e não pode considerar importante, e o que se lhe
pode legitimamente exigir como base para a escolha que fez. Mude-se a
lista, por exemplo, acrescentando a utilidade social como critério, e
teremos algumas escolhas particulares diferentes, mais parecidas com as
que se esperam de um engenheiro. Subtraia-se da lista a precisão, e o
empreendimento que daí resulta pode não se assemelhar absolutamente nada
à ciência, mas talvez à filosofia. Diferentes disciplinas criativas
caracterizam-se, entre outras coisas, por conjuntos diferentes de
valores partilhados. Se a filosofia e a engenharia estão muito próximas
das ciências, pensem na literatura ou nas artes plásticas. Que Milton
não tenha situado o Paradise Lost num universo copernicano não significa
que concordava com Ptolomeu, mas que tinha que fazer outras coisas além
da ciência.
O reconhecimento de que os critérios
de escolha podem funcionar como valores, quando incompletos como regras,
julgo eu que tem um certo número de vantagens acentuadas. Primeira, como
já argumentei extensamente, explica em pormenor aspectos do
comportamento científico, que a tradição considerou anómalos ou mesmo
irracionais. 0 que é mais importante ainda, permite que os critérios
pautados funcionem completamente nos primeiros estágios da escolha
teórica, período em que são mais necessários, mas durante o qual, de
acordo com a visão tradicional, funcionam mal ou nem sequer funcionam.
Copérnico estava a responder-lhes durante os anos necessários para
converter a astronomia heliocêntrica, de um esquema conceptual global,
numa maquinaria matemática para a previsão das posições planetárias.
Eram essas previsões o que os astrónomos avaliavam; sem elas, Copérnico
dificilmente seria ouvido, coisa que acontecera antes com a ideia de uma
Terra em movimento. O facto de a sua própria versão ter convencido tão
poucos é menos importante do que o seu reconhecimento da base sobre a
qual os juízos se teriam de fazer para que o heliocentrismo pudesse
sobreviver. Embora se deva invocar a idiossincrasia para explicar por
que razão Kepler e Galileu se converteram muito cedo ao sistema de
Copérnico, as lacunas preenchidas pelos seus esforços para o aperfeiçoar
eram especificados apenas pelos valores partilhados.
Esse ponto tem um corolário que pode
ainda ser mais importante. A maior parte das teorias apresentadas como
novidade não sobrevivem. Em geral, as dificuldades que as fizeram
aparecer são explicadas por meios mais tradicionais. Mesmo quando tal
não acontece, em geral exige-se muito trabalho, tanto teórico como
experimental, antes de a nova teoria poder manifestar precisão e alcance
suficientes para originar uma convicção amplamente distribuída. Em suma,
antes de o grupo a aceitar, uma teoria nova foi testada ao longo do
tempo pela investigação de muitos homens, alguns trabalhando nela,
outros lidando com a sua rival tradicional. Semelhante modo de
desenvolvimento, contudo, exige um processo de decisão que permita a
homens racionais discordar, e essa discordância devia ser excluída pelo
algoritmo partilhado, que os filósofos em geral procuraram. Se ele
estivesse à sua disposição, todos os cientistas concordantes tomariam a
mesma decisão ao mesmo tempo. Com padrões de aceitação de nível baixo,
passariam de um ponto de vista global e atractivo a outro, nunca dando à
teoria tradicional uma oportunidade para fornecer atractivos
equivalentes. Com padrões mais elevados, ninguém que satisfizesse o
critério de racionalidade estaria inclinado a tentar a nova teoria, para
a articular de modo a que mostrasse a sua fecundidade ou revelasse a sua
precisão e alcance. Duvido que a ciência sobrevivesse à mudança. O que
de um ponto de vista pode parecer a perda e a imperfeição de critérios
de escolha concebidos como regras pode, quando os mesmos critérios se
vêem como valores, aparecer como um meio indispensável de propagar o
risco que a introdução ou o apoio à novidade sempre acarreta.
Mesmo os que me seguiram até aqui
desejarão saber como é que um empreendimento baseado em valores do
género que acabei de descrever pode desenvolver-se como o faz uma
ciência, produzindo repetidamente técnicas novas e poderosas de predição
e controlo. Infelizmente, não tenho qualquer resposta para esta questão,
mas isso é apenas outra maneira de dizer que não reivindico a resolução
do problema da indução. Se a ciência progredisse devido a algum
algoritmo partilhado e obrigatório de escolha, também seria incapaz de
explicar o seu sucesso. Sinto agudamente essa lacuna, mas a sua presença
não altera a minha posição quanto à tradição.
Apesar de tudo, não é por acaso que a
minha lista dos valores que orientam a escolha científica é, tanto como
a respectiva diferença, idêntica à lista tradicional das regras que
ditam a escolha. Dada qualquer situação concreta a que se possam aplicar
as regras do filósofo, os meus valores funcionariam como as suas regras,
produzindo a mesma escolha. Toda a justificação da indução, toda a
explicação das razões do funcionamento das regras, se aplicará também
aos meus valores. Consideremos agora uma situação em que a escolha pelas
regras partilhadas se mostrasse impossível, não porque as regras estejam
erradas, mas porque são, como regras, intrinsecamente incompletas. Os
indivíduos devem então escolher e guiar-se ainda pelas regras (agora
valores), quando o fazem. Com esse propósito, contudo, cada um deve
primeiro incorporar em si as regras, e cada um fará isso de um modo um
tanto ou quanto diferente, mesmo que a decisão prescrita pelas regras,
completadas de várias maneiras, se possa revelar unânime. Se, além
disso, considerar que o grupo é suficientemente grande para que as
diferenças individuais se distribuam numa curva normal, então, qualquer
argumento que justifique a eleição por regras, do filósofo, será
imediatamente adaptável à minha escolha por valor. Um grupo demasiado
pequeno, ou uma distribuição excessivamente obliquada por pressões
históricas externas, impediria, naturalmente, a transferência do
argumento (8). Mas são essas, justamente, as circunstâncias sob as quais
o progresso científico é ele próprio problemático. Então, não se espera
a transferência.
Ficarei satisfeito se estas
referências a uma distribuição normal das diferenças individuais e ao
problema da indução fizerem que a minha posição se apresente muito
próxima de pontos de vista mais tradicionais. No tocante à escolha da
teoria, nunca pensei que os meus desvios tenham sido grandes e,
portanto, surpreendi-me com as acusações de «psicologia de massas»,
citadas no começo. No entanto, é suficiente verificar que as posições
não são totalmente idênticas e, com essa finalidade, pode ser útil uma
analogia. Muitas propriedades dos líquidos e dos gases podem explicar-se
com base na teoria cinética pela suposição de que todas as moléculas se
deslocam à mesma velocidade. Entre tais propriedades, estão as
regularidades conhecidas como a lei de Boyle e de Charles. Outras
características, especialmente a evaporação, não podem explicar-se de
modo tão simples. Para lidar com elas, deve supor-se que as velocidades
moleculares diferem, que são distribuídas ao acaso, governadas pelas
leis da contingência. 0 que tenho estado aqui a sugerir é que também a
escolha teórica só em parte se pode explicar por uma teoria que atribua
as mesmas propriedades a todos os cientistas que devem fazer a escolha.
Aspectos essenciais do processo conhecido em geral como verificação só
se entendem recorrendo aos aspectos a respeito dos quais podem diferir
os homens, permanecendo cientistas. A tradição pressupõe que tais
aspectos são vitais para o processo de descoberta, o que imediatamente e
por essa razão se desenrola fora dos limites filosóficos. Que esses
aspectos possam ter funções significativas também no problema central
filosófico da justificação da escolha teórica é o que os filósofos da
ciência têm categoricamente negado até agora.
O que resta por dizer pode agrupar-se
num epílogo um tanto ou quanto miscelâneo. Em nome da clareza e para
evitar escrever um livro, utilizei ao longo desta comunicação alguns
conceitos e locuções tradicionais, sobre cuja viabilidade expressei
algures sérias dúvidas. Para os que conhecem o trabalho em que fiz isso,
termino indicando três aspectos do que disse, que representariam melhor
a minha concepção se se expressassem noutros termos, e indico
simultaneamente as direcções principais que essa recolocação devia
prosseguir. As áreas que tenho em mente são: a invariância do valor,
subjectividade e comunicação parcial. Se a minha visão do
desenvolvimento científico for novidade - matéria onde existe espaço
legítimo de dúvida - é em áreas como esta, melhor do que na escolha de
teorias, que se deviam procurar os meus principais desvios da tradição.
Ao longo desta comunicação supus
implicitamente que, quaisquer que tivessem sido as respectivas origens,
os critérios ou valores desenvolvidos na escolha teórica estão fixados
de uma vez por todas, não sendo afectados pela participação respectiva
nas transições de uma teoria para outra. Falando em geral, mas mesmo
muito em geral, considerei que fosse esse o caso. Se a lista dos valores
importantes permanecer breve (mencionei cinco, nem todos independentes)
e se a respectiva especificação for vaga, então, valores como a
precisão, alcance e fecundidade são atributos permanentes da ciência.
Mas basta um pouco de conhecimento da história para sugerir que tanto a
aplicação destes valores como, mais obviamente, os pesos relativos que
lhes estão ligados variaram acentuadamente com o tempo e também com o
campo de aplicação. Além disso, muitas destas variações no valor têm
sido associadas a mudanças particulares na teoria científica. Embora a
experiência dos cientistas não forneça qualquer justificação filosófica
para os valores que desenvolvem (essa justificação resolveria o problema
da indução), esses valores são, em parte, apreendidos dessa experiência
e evoluíram com ela.
Todo o assunto necessita de mais
estudo (os historiadores aceitaram, em geral, como verdadeiros, os
valores científicos, embora não tivessem aceitado os métodos
científicos), mas algumas observações esclarecerão o género de variações
que tenho em mente. A precisão, enquanto valor, tem denotado cada vez
mais, com o tempo, concordância quantitativa ou numérica, por vezes à
custa da qualitativa. Antes do início dos tempos modernos, contudo, a
precisão nesse sentido só era critério para a astronomia, a ciência da
região celeste. Em qualquer outra parte nem se esperava nem procurava.
No entanto, durante o século XVII, o critério da concordância numérica
alargou-se à mecânica; durante finais do século XVIII e princípios do
século XIX, estendeu-se à química e a outros temas como a electricidade
e o calor, e neste século a muitas partes da biologia. Ou pensem na
utilidade, uma rubrica de valor que não aparece na minha lista inicial.
Também apareceu significativamente no desenvolvimento científico, mas de
modo mais forte e firme para os químicos do que, digamos, para os
matemáticos e para os físicos. Ou consideremos o alcance. Ainda é um
valor científico importante, mas avanços científicos notáveis
alcançaram-se repetidamente à sua custa, e o peso que lhe foi atribuído
em tempos de escolha diminuiu quase consequentemente.
O que pode parecer particularmente
penoso acerca de mudanças como esta é que elas ocorrem em geral na
sequência de uma mudança de teoria. Uma das objecções à nova química de
Lavoisier consistiu nos obstáculos que ele pôs à realização do que tinha
sido anteriormente um dos objectivos tradicionais da química: a
exploração das qualidades, como a cor e a textura, assim como as
mudanças respectivas. Com a aceitação da teoria de Lavoisier, tais
explicações deixaram durante algum tempo de ser um valor para os
químicos; a capacidade de explicar a variação qualitativa deixou de ser
um critério importante para a avaliação da teoria química. É claro que
se essas mudanças de valor tivessem ocorrido tão depressa ou tivessem
sido tão completas como as mudanças da teoria a que estão ligadas, então
a escolha de teoria seria escolha de valor, e nenhuma podia fornecer uma
justificação para a outra. Mas, historicamente, a mudança de valor é em
geral um concomitante tardio e amplamente inconsciente da escolha, e a
grandeza da primeira é em geral menor do que a última. Para as funções
que atribuí aqui aos valores, essa estabilidade relativa fornece uma
base suficiente. A existência de um laço retroactivo mediante o qual a
mudança teórica afecta os valores que conduzem a essa mudança não torna
o processo de decisão circular, prejudicial em qualquer sentido.
Quanto a um segundo aspecto em que o
meu recurso à tradição pode parecer enganador, devo ser muito mais
cuidadoso. Isso exige as capacidades de um filósofo da linguagem comum,
que eu não possuo. Nem sequer é necessário um ouvido muito agudo para a
linguagem para cair na conta da forma insatisfatória como os termos
«objectividade» e, mais especialmente, «subjectividade», funcionaram
nesta comunicação. Vou sugerir rapidamente os aspectos em que creio que
a linguagem se extraviou. «Subjectivo» é um termo com vários usos
estabelecidos: num deles opõe-se a «objectivo»; noutro, a «juízo».
Quando os meus críticos descrevem as características idiossincrásicas a
que faço apelo, como subjectivas, recorrem, julgo que erroneamente, ao
segundo destes sentidos. Quando se queixam de que privo a ciência da
objectividade, misturam esse segundo sentido de subjectividade com o
primeiro.
Uma aplicação padronizada do termo
«subjectivo» faz-se em matérias de gosto, e os meus críticos parecem
supor que foi isso o que fiz com a escolha de teoria. Mas, ao fazerem
isso, esquecem-se de um padrão de distinção que vem de Kant. Como as
informações sensíveis, que também são subjectivas no sentido agora em
discussão, os assuntos de gosto são indiscutíveis. Suponham que, ao sair
de um cinema com um amigo, depois de ver um western, eu excluo:
«Gostei muito desta trapalhada incrível!» O meu amigo, caso não
tenha gostado do filme, pode dizer que tenho mau gosto, um assunto com o
qual, nestas circunstâncias, concordaria facilmente. Mas, supondo que eu
não menti, ele não pode discordar da afirmação de que gostei do filme,
ou não pode tentar persuadir-me de que o que disse sobre a minha reacção
estava errado. O que é discutível na minha observação não é a minha
caracterização do meu estado interno, a minha exemplificação de gosto,
mas o meu juízo de que o filme era uma trapalhada. Se o meu amigo
discordasse deste ponto, podíamos argumentar pela noite dentro, cada um
comparando o filme com outros bons que tivéssemos visto, cada um
revelando, implícita ou explicitamente, alguma coisa sobre o modo como
julga o mérito cinematográfico, sobre a sua estética. Embora um de nós
possa ter persuadido o outro, antes de se retirar, não necessita de ter
feito isso para demonstrar que a nossa diferença é sobre o juízo e não
sobre o gosto.
As avaliações ou as escolhas de
teorias têm, penso eu, exactamente este carácter. Não quer dizer que os
cientistas digam apenas que gostam ou não gostam desta e daquela teoria.
Depois de 1926, Einstein disse pouco mais do que isso sobre a sua
oposição à teoria quântica. Mas pode sempre exigir-se aos cientistas que
expliquem as respectivas escolhas, para exibir as bases para os seus
juízos. Esses juízos são eminentemente discutíveis, e quem se recusar a
discutir o seu próprio juízo não pode esperar ser levado a sério. Embora
haja, muito ocasionalmente, líderes do gosto científico, a sua
existência tende a provar a regra. Einstein foi um desses poucos, e o
seu crescente isolamento da comunidade científica, no final da vida,
revela como é limitado o papel que o gosto pode desempenhar na escolha
teórica. Bohr, ao contrário de Einstein, discutiu as bases para o seu
juízo e manteve-se activo. Se os meus críticos introduzem o termo
«subjectivo» num sentido que o opõe ajuízo - sugerindo assim que torno a
escolha de teorias, indiscutível, uma matéria de gosto - enganaram-se
seriamente quanto à minha posição.
Voltemos agora ao sentido em que
«subjectividade» se opõe a «objectividade», e note-se primeiro que ele
levanta questões totalmente separadas das que acabaram de ser
discutidas. Que o meu gosto seja mau ou refinado, a minha afirmação de
que gostei do filme é objectiva, a menos que tenha mentido. No entanto,
para o meu juízo de que o filme foi uma trapalhada, a distinção
objectivo-subjectivo não se aplica em absoluto, pelo menos não obvia nem
directamente. Quando os meus críticos dizem que privo a escolha teórica
de objectividade, devem, por conseguinte, recorrer a um sentido de
subjectividade muito diferente, presumivelmente àquele em que as
tendências e gostos pessoais funcionam em vez, ou em face, dos factos
reais. Mas esse sentido de subjectividade não se ajusta melhor do que o
primeiro ao processo que tenho estado a descrever. Onde se devem
introduzir factores dependentes da biografia ou da personalidade
individuais a fim de tornar os valores aplicáveis, não se põem de lado
quaisquer padrões de factualidade ou de realidade. A minha discussão da
escolha teórica indicia decerto algumas limitações de objectividade, mas
não pelo isolamento de elementos adequadamente ditos subjectivos. Nem
sequer estou totalmente satisfeito com a noção de que o que tenho estado
a apresentar sejam limitações. A objectividade devia ser analisável em
termos de critérios como precisão e consistência. Se estes critérios não
fornecem todas as orientações que habitualmente esperamos deles, então o
que o meu argumento mostra pode ser o significado, e não os limites, da
objectividade.
Voltemos, em conclusão, a um terceiro
aspecto, ou conjunto de aspectos, em que esta comunicação precisa de ser
reorganizada. Ao longo dela, supus que as discussões sobre a escolha
teórica não eram problemáticas, que os factos a que se apelava em tais
discussões eram independentes da teoria, e que o resultado das
discussões se chama, adequadamente, escolha. Algures, impugnei todas
estas suposições, argumentando que a comunicação entre proponentes de
teorias diferentes é inevitavelmente parcial, que o que cada um
considera como factos depende em parte da teoria que partilha, e que uma
transferência de lealdade do indivíduo, de teoria para teoria, se
descreve muitas vezes mais adequadamente como conversão, e não como
eleição. Embora tudo isto seja tão problemático como controverso, o meu
empenhamento não diminui. Agora, não os defenderei, mas devo pelo menos
tentar indicar como o que aqui disse se pode ajustar para se conformar
com aqueles aspectos, mais centrais, da minha visão do desenvolvimento
científico.
Com esse propósito, recorro a uma
analogia que desenvolvi noutros lugares. Os proponentes de teorias
diferentes são, afirmei, como os que têm linguagens maternas diferentes.
A comunicação entre eles faz-se através da tradução, o que levanta todas
as dificuldades familiares às traduções. E claro que esta analogia é
incompleta, visto que o vocabulário das duas teorias pode ser idêntico e
a maior parte das palavras funciona do mesmo modo em ambas. Mas algumas
palavras dos vocabulários básicos, como também do teórico, das duas
teorias - palavras como «estrela» e «planeta», «mistura» e «composto»,
ou «força» e matéria» - funcionam de modo diferente. Tais diferenças são
inesperadas e serão descobertas e localizadas apenas por sucessivas
experiências do fracasso de comunicação. Sem prosseguir neste assunto,
afirmo simplesmente a existência de limitações significativas que os
proponentes de teorias diferentes encontram para poderem comunicar entre
si. As mesmas limitações tornam difícil ou, mais provavelmente,
impossível que um indivíduo tenha ambas as teorias juntas no espírito e
as compare ponto por ponto entre si e com a natureza. No entanto, esse
género de comparação é o processo de que depende a aptidão de toda a
palavra como «escolha».
Todavia, apesar da incompletude da
sua comunicação, os proponentes de teorias diferentes podem exibir uns
aos outros, nem sempre facilmente, os resultados técnicos concretos
obtidos pelos praticantes de cada teoria. Exige-se pouca ou nenhuma
tradução para aplicar pelo menos alguns critérios de valor a estes
resultados. (A precisão e a fecundidade são os mais imediatamente
aplicáveis, seguidos talvez pelo alcance. A consistência e a
simplicidade são muito mais problemáticas.) Por mais incompreensível que
a nova teoria possa ser para os partidários da tradição, a exibição de
resultados concretos e tangíveis persuadirá pelo menos alguns deles de
que devem descobrir como é que esses resultados se alcançam. Para tal
fim, devem aprender a traduzir, manejando talvez comunicações já
publicadas como uma pedra de Rosetta ou, muitas vezes com melhores
resultados, visitando o inovador, falando com ele, observando-o a ele e
aos seus estudantes a trabalhar. Estas exposições podem não resultar na
adopção da teoria: alguns defensores da tradição podem voltar a casa e
tentar ajustar a velha teoria para produzir resultados equivalentes. Mas
outros, se a nova teoria veio para ficar, descobrirão que, num dado
ponto do processo de aprendizagem linguística, deixaram de traduzir e
começaram antes a falar como nativos do novo idioma. Não ocorreu nenhum
processo totalmente semelhante à escolha mas, apesar de tudo, eles estão
a praticar já a nova teoria. Além disso, os factores que os levaram a
arriscar a conversão que sofreram são precisamente aqueles que esta
comunicação acentuou, ao discutir um processo um tanto ou quanto
diferente que, de acordo com a tradição filosófica, foi rotulado de
escolha teórica.
_________________________
(1)
The
Structure of Scientific Revolutions,
2.ª ed.
(Chicago, 1970), pp.
148, 151-52, 159. Todas as passagens de onde se retiraram
estes fragmentos apareceram na mesma forma na primeira edição, publicada
em 1962.
(2)
Ibid., p.170.
(3)
Imre Lakatos, «Falsification and the Methodology of Scientific Research
Programmes»,
in
I. Lakatos e A. Musgrave, eds.,
Criticism and the
Growth
of Knowledge
(Cambridge, 1970), pp. 91-195.
A frase citada, que
aparece nap.
178,
está em
itálico
no original.
(4)
Dudley Shapere, «Meaning and Scientific Change»,
in R.
G. Colodny, ed., Mind and
Cosmos: Essays in Contemporary Science and Philosophy,
University of Pittsburgh Series in the Philosophy of Science, vol. 3
(Pittsburgh,
1966), pp. 41-85.
A
citação encontra-se
nap.
67.
(5) Israel Scheffer,
Science
and Subjectivity
(Indianapolis,
1967), p. 81.
(6)
0 último
critério, fecundidade, merece maior ênfase do que já recebeu. Um
cientista, ao escolher entre duas teorias, sabe habitualmente que a
sua
decisão terá uma relação com a sequência da sua carreira de
investigação. Naturalmente, está especialmente atraído por uma teoria
que promete
os êxitos concretos pelos quais os cientistas são em
geral recompensados.
(7)
0 exemplo menos equívoco
desta posição é provavelmente o que
é
desenvolvido
in
Scheffler,
Science and Subjectivity,
cap. 4.
(8)
Se o grupo for pequeno, é mais
provável que flutuações casuais resultem
na partilha, pelos seus membros, de um conjunto de valores atípicos e,
por conseguinte, fazendo escolhas diferentes das que seriam feitas por
um grupo maior e mais
representativo. O ambiente externo - intelectual,
ideológico ou económico
- deve afectar
sistematicamente o sistema de valores de grupos muito mais amplos, e as
consequências podem incluir dificuldades
em introduzir o empreendimento
científico em sociedades com valores hostis, ou talvez mesmo o fim
desse empreendimento no interior de sociedades,
onde ele floresceu outrora. No
entanto, é preciso ser muito cauteloso nesta
área. As mudanças no ambiente onde
se pratica a ciência podem também ter efeitos fecundos sobre a
investigação. Os historiadores recorrem muitas vezes,
por exemplo, a diferenças entre os ambientes nacionais para explicar por
que razão as inovações são iniciadas e prosseguidas desproporcionadamente,
em primeiro lugar, em países particulares, e. g., o darwinismo na
Grã-Bretanha, a conservação na
Alemanha. Actualmente, não sabemos nada
de substancial sobre os requisitos
mínimos do meio social no interior do qual um empreendimento como
o da ciência possa florescer.
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