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TEXTO DE REFERÊNCIA

Hume, D. (1748). Investigação sobre o entendimento humano. Lisboa: Edições 70, 2004, Secção XII, Parte 1

 

116. Não existe maior número de raciocínios filosóficos, exibidos sobre qualquer assunto, do que os que provam a existência de uma Divindade e refutam as falácias dos ateus; e, no entanto, os filósofos mais religiosos discutem ainda se um homem pode ser tão cego que seja um ateu especulativo. Como reconciliaremos estas contradições? O cavaleiro andante, que ia à aventura para limpar o mundo dos dragões e gigantes, nunca alimentou a menor dúvida em relação à existência desses monstros.

O Céptico é outro inimigo da religião, que naturalmente provoca a indignação de todos os teólogos e filósofos mais meditabundos, embora seja certo que ninguém encontrou al­guma vez uma tal absurda criatura, ou conversou com um homem que não tivesse nenhuma opinião ou principio rela­tivo a qualquer assunto, quer de acção ou de especulação. Isto gera uma questão muito natural: o que é que significa ser um céptico? E até que ponto é possível instigar os princípios filosóficos da dúvida e da incerteza?

Existe uma espécie de cepticismo, antecedente a todo o estudo e filosofia, que é muito inculcada por Descartes e outros, como o preservativo soberano contra o erro e o juízo preci­pitado. Recomenda uma dúvida universal, não só de todas as nossas opiniões e princípios anteriores, mas também das nossas próprias faculdades, de cuja veracidade, dizem eles, nos deve­mos assegurar mediante uma cadeia de raciocínio, deduzida de algum princípio original que, possivelmente, não pode ser falaz ou enganador. Mas, não existe um tal princípio original, que tenha uma prerrogativa sobre os outros, que são auto­-evidentes e convincentes; ou, se houvesse, não poderíamos avançar um passo para além dele, excepto mediante o uso das próprias faculdades, de que supostamente já desconfiamos. Por conseguinte, a dúvida cartesiana, se alguma vez fosse possível a uma criatura humana atingi-la (na realidade, não é), seria inteiramente incurável e nenhum raciocínio nos poderia in­troduzir num estado de certeza e convicção acerca de qualquer matéria.

Deve, no entanto, confessar-se que esta espécie de cepti­cismo, quando mais moderada, se pode entender num sentido muito aceitável, e constitui um preparativo necessário ao estudo da filosofia, ao salvaguardar uma imparcialidade correcta nos nossos juízos e ao apartar a nossa mente de todos os precon­ceitos de que nos possamos ter imbuído pela educação ou pela opinião temerária. Começar com princípios claros e distintos, avançar mediante passos cautelosos e seguros, rever frequente­mente as nossas conclusões e examinar minuciosamente todas as suas consequências – embora por estes meios venhamos a fazer um lento e pequeno progresso nos nossos sistemas, são os únicos métodos pelos quais podemos esperar alcançar a verdade e obter uma estabilidade e certeza genuína nas nossas determinações.

117. Há outra espécie de cepticismo, consequente à ciência e à inquirição, quando se supõe que os homens descobriram ou o carácter absolutamente ilusório das suas faculdades men­tais, ou a sua inadequação para atingir qualquer determinação fixa em todos os curiosos objectos de especulação, em que habitualmente se empregam. Até mesmo os nossos próprios sentidos são postos em questão por uma certa espécie de filó­sofos; e as máximas da vida comum são sujeitas à mesma dú­vida, tal como os mais profundos princípios ou conclusões da metafísica e da teologia. Dado que estas doutrinas parado­xais (se é que podem chamar-se doutrinas) se encontrarão em alguns filósofos e a refutação delas em vários, dai que susci­tem naturalmente a nossa curiosidade e nos levem a pesquisar argumentos em que elas se possam fundar.

Não preciso de insistir nos tópicos mais banais, utilizados pelos cépticos em todas as épocas, contra a evidência dos sentidos como, por exemplo, os derivados da imperfeição e do carácter ilusório dos nossos órgãos em inumeráveis ocasiões; a aparência torcida de um remo na água; os vários aspectos dos objectos, segundo as suas diferentes distâncias; as imagens duplas que resultam da pressão num olho; e muitas outras aparências de natureza semelhante. Estes tópicos cépticos, de facto, são apenas suficientes para provar que não se deve, impli­citamente, depender apenas dos sentidos, mas que devemos corrigir a sua evidência pela razão e por considerações derivadas da natureza do meio, da distância do objecto e da disposição do órgão, a fim de deles fazer, dentro do seu âmbito, os cri­térios genuínos da verdade e da falsidade. Há outros argu­mentos mais profundos contra os sentidos, que não acatam uma solução tão fácil.

118. Parece evidente que os homens são levados, por um instinto ou predisposição natural, a depositar fé nos sen­tidos; e que, sem qualquer raciocínio ou mesmo quase antes do uso da razão, supomos sempre um universo externo, que não depende da nossa percepção, mas existiria, ainda que nós e todas as criaturas sensíveis estivessem ausentes ou fossem aniquiladas. Até mesmo o mundo animal é governado por uma opinião semelhante e preserva a crença dos objectos externos em todos os seus pensamentos, intenções e acções.

Parece também evidente que, ao seguirem este cego e poderoso instinto da natureza, os homens supõem sempre que as próprias imagens, apresentadas pelos sentidos, são os objectos externos e nunca alimentam qualquer suspeita de que umas nada são excepto representações dos outros. Pensa-se que esta mesa aqui, que vemos ser branca e cuja dureza sentimos, existe independentemente da nossa percep­ção e é algo de externo à nossa mente, que a percebe. A nossa presença não lhe confere o ser; a nossa ausência não a aniquila. Ela salvaguarda a sua existência uniforme e inteira, indepen­dentemente da situação dos seres inteligentes, que a percebem ou contemplam.

Esta opinião universal e primitiva de todos os homens, porém, cedo é destruída pela filosofia mais trivial, a qual nos ensina que nada pode estar presente à mente a não ser uma imagem ou percepção, e que os sentidos são apenas as entradas por onde as imagens são transportadas, sem conseguirem suscitar uma comunicação imediata entre a mente e o objecto. A mesa que vemos parece diminuir, à medida que dela mais nos afastamos, mas a mesa real, que existe independente de nós, não sofre nenhuma alteração; não passava, pois, da sua imagem, que estava presente à mente. Eis os óbvios ditames da razão; e nenhum homem que reflicta, alguma vez duvidou que as existências, por nós consideradas ao dizer­mos esta casa e aquela árvore, são unicamente percepções na mente e cópias ou representações fugidias de outras existên­cias, que permanecem uniformes e independentes.

119. Até agora, pois, somos forçados pelo raciocínio a contradizer ou a apartar-nos dos instintos primitivos da natu­reza e a adoptar um novo sistema em relação à evidência dos sentidos. Mas a filosofia encontra-se aqui extremamente em­baraçada, ao ter de justificar este novo sistema e neutralizar as cavilações e as objecções dos cépticos. Não mais pode defender o instinto infalível e irresistível da natureza, porque isso nos levou a um sistema completamente diferente, que se reconhece ser falível e até erróneo. E justificar o pretenso sis­tema filosófico por meio de uma cadeia de argumentos claros e convincentes, ou mesmo mediante uma aparência de argu­mentação, excede o poder de toda a capacidade humana.

Mediante que argumento se pode demonstrar que as percepções da mente devem ser causadas por objectos exter­nos, totalmente diferentes delas embora com elas se parecendo (se isso é possível) e que não podiam surgir ou da energia da própria mente, ou da sugestão de algum espírito invisível e desconhecido, ou de uma outra causa ainda mais incógnita para nós? Sabe-se que, de facto, muitas das percepções não brotam de algo externo, como nos sonhos, na loucura e noutras doenças. E nada pode ser mais inexplicável do que a maneira como o corpo tem de agir sobre a mente, a fim de transmitir uma imagem de si mesmo a uma substância de natureza supos­tamente tão diversa e mesmo contrária.

É uma questão de facto se as percepções dos sentidos são produzidas por objectos externos, a elas semelhantes: como irá decidir-se tal questão? Pela experiência, certamente, como todas as outras questões de natureza similar. Mas, aqui, a experiência é e deve ser inteiramente muda. A mente nunca tem algo presente a si a não ser as percepções e, possivelmente, não pode obter qualquer experiência da sua conexão com os objectos. Por conseguinte, a suposição de uma tal conexão é desprovida de todo o fundamento no raciocínio.

120. Recorrer à veracidade do Ser supremo para demonstrar a veracidade dos nossos sentidos é, sem dúvida, realizar um circuito muito inesperado. Se a sua veracidade estivesse nesta matéria deveras implicada, os nossos sentidos seriam totalmente infalíveis, porque não é possível que Ele nos possa enganar. Sem falar em que, se o mundo externo se puser uma vez em questão, não saberemos como arranjar argumentos pelos quais possamos provar a existência desse Ser ou de algum dos seus atributos.

121. Eis, pois, um tópico em que os cépticos mais pro­fundos e mais filosóficos sempre triunfarão, ao tentarem intro­duzir uma dúvida universal em todos os objectos do conhe­cimento e da inquirição humana. Segues os instintos e as incli­nações da natureza, podem eles dizer, ao dares o assentimento à veracidade dos sentidos? Mas estes levam-te a crer que a própria percepção ou imagem sensível é o objecto externo.

Rejeitas este princípio a fim de adoptares uma opinião mais racional, segundo a qual as percepções são apenas represen­tações de algo externo? Apartas-te aqui das inclinações natu­rais e de sentimentos mais óbvios; e, no entanto, não conse­guem satisfazer a tua razão, que jamais pode encontrar um argumento convincente derivado da experiência para provar que as percepções têm uma conexão com os objectos ex­ternos.

122. Há outro tópico céptico de natureza semelhante, proveniente da filosofia mais profunda, que podia merecer a nossa atenção, se ele fosse necessário para mergulhar tão fundo a fim de descobrirmos os argumentos e raciocínios, que muito pouco podem servir para algum propósito. É uni­versalmente admitido pelos investigadores modernos que todas as qualidades sensíveis dos objectos, como a dureza, a brandura, o calor, o frio, a brancura, o preto, etc., são meramente secun­dárias e não existem nos próprios objectos, mas são percepções da mente, sem arquétipo ou modelo externo, que elas representam. Se isto se aceita relativamente às qualidades secundárias, deve também seguir-se no tocante às supostas qualidades pri­márias da extensão e da solidez; as últimas não podem ter um direito maior a esta denominação do que as primeiras. A ideia de extensão é plenamente adquirida a partir dos sentidos da vista e do tacto; e, se todas as qualidades, percebidas pelos sentidos, estão na mente e não no objecto, a mesma conclusão deve abarcar a ideia de extensão, que é totalmente dependente das ideias sensíveis ou das ideias de qualidades secundárias. Nada nos pode livrar desta conclusão, excepto a asserção de que as ideias das qualidades primárias se obtêm por abstracção, uma opinião que, se a examinarmos com rigor, acharemos ininteligível e até absurda. Uma extensão, que não é nem tan­gível nem visível, não consegue possivelmente conceber-se; e uma extensão tangível ou visível, que não é nem dura nem macia, nem preta nem branca, encontra-se igualmente para além do âmbito da concepção humana. Que um homem tente conceber um triângulo em geral, que não é nem isósceles nem escaleno, nem tem qualquer comprimento particular ou proporção dos lados, e depressa perceberá a absurdidade de todas as noções escolásticas relativamente à abstracção e às ideias gerais.

123. Portanto, a primeira objecção filosófica à evidência dos sentidos ou à opinião da existência externa consiste no facto de que uma tal opinião, se firmada no instinto natural, é contrária à razão e, se referida à razão, é contrária ao instinto natural e, ao mesmo tempo, não traz em si nenhuma evidência racional para convencer um inquiridor imparcial. A segunda objecção vai mais além e representa essa opinião como contrá­ria à razão; pelo menos, se for um princípio da razão que todas as qualidades sensíveis se encontram na mente, e não no objecto. Despojai a matéria de todas as suas qualidades inteligíveis, primárias e secundárias, aniquilai-a de alguma maneira e deixai apenas um certo algo desconhecido, inexplicável, como causa das nossas percepções; uma noção tão imperfeita que nenhum céptico pensará que vale a pena lutar contra ela.

 

   
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