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116. Não existe
maior número de raciocínios filosóficos, exibidos sobre qualquer
assunto, do que os que provam a existência de uma Divindade e refutam as
falácias dos ateus; e, no entanto, os filósofos mais religiosos
discutem ainda se um homem pode ser tão cego que seja um ateu
especulativo. Como reconciliaremos estas contradições? O cavaleiro
andante, que ia à aventura para limpar o mundo dos dragões e gigantes,
nunca alimentou a menor dúvida em relação à existência desses monstros.
O Céptico
é outro inimigo da religião, que naturalmente provoca a indignação de
todos os teólogos e filósofos mais meditabundos, embora seja certo que
ninguém encontrou alguma vez uma tal absurda criatura, ou conversou com
um homem que não tivesse nenhuma opinião ou principio relativo a
qualquer assunto, quer de acção ou de especulação. Isto gera uma questão
muito natural: o que é que significa ser um céptico? E até que ponto é
possível instigar os princípios filosóficos da dúvida e da incerteza?
Existe uma
espécie de cepticismo, antecedente a todo o estudo e filosofia,
que é muito inculcada por Descartes e outros, como o preservativo
soberano contra o erro e o juízo precipitado. Recomenda uma dúvida
universal, não só de todas as nossas opiniões e princípios anteriores,
mas também das nossas próprias faculdades, de cuja veracidade, dizem
eles, nos devemos assegurar mediante uma cadeia de raciocínio, deduzida
de algum princípio original que, possivelmente, não pode ser falaz ou
enganador. Mas, não existe um tal princípio original, que tenha uma
prerrogativa sobre os outros, que são auto-evidentes e convincentes;
ou, se houvesse, não poderíamos avançar um passo para além dele, excepto
mediante o uso das próprias faculdades, de que supostamente já
desconfiamos. Por conseguinte, a dúvida cartesiana, se alguma vez fosse
possível a uma criatura humana atingi-la (na realidade, não é), seria
inteiramente incurável e nenhum raciocínio nos poderia introduzir num
estado de certeza e convicção acerca de qualquer matéria.
Deve, no
entanto, confessar-se que esta espécie de cepticismo, quando mais
moderada, se pode entender num sentido muito aceitável, e constitui um
preparativo necessário ao estudo da filosofia, ao salvaguardar uma
imparcialidade correcta nos nossos juízos e ao apartar a nossa mente de
todos os preconceitos de que nos possamos ter imbuído pela educação ou
pela opinião temerária. Começar com princípios claros e distintos,
avançar mediante passos cautelosos e seguros, rever frequentemente as
nossas conclusões e examinar minuciosamente todas as suas consequências
– embora por estes meios venhamos a fazer um lento e pequeno progresso
nos nossos sistemas, são os únicos métodos pelos quais podemos esperar
alcançar a verdade e obter uma estabilidade e certeza genuína nas nossas
determinações.
117. Há outra
espécie de cepticismo,
consequente
à ciência e à inquirição, quando se supõe que os homens
descobriram ou o carácter absolutamente ilusório das suas faculdades
mentais, ou a sua inadequação para atingir qualquer determinação fixa
em todos os curiosos objectos de especulação, em que habitualmente se
empregam. Até mesmo os nossos próprios sentidos são postos em questão
por uma certa espécie de filósofos; e as máximas da vida comum são
sujeitas à mesma dúvida, tal como os mais profundos princípios ou
conclusões da metafísica e da teologia. Dado que estas doutrinas
paradoxais (se é que podem chamar-se doutrinas) se encontrarão em
alguns filósofos e a refutação delas em vários, dai que suscitem
naturalmente a nossa curiosidade e nos levem a pesquisar argumentos em
que elas se possam fundar.
Não preciso de
insistir nos tópicos mais banais, utilizados pelos cépticos em
todas as épocas, contra a evidência dos sentidos como, por
exemplo, os derivados da imperfeição e do carácter ilusório dos nossos
órgãos em inumeráveis ocasiões; a aparência torcida de um remo na água;
os vários aspectos dos objectos, segundo as suas diferentes distâncias;
as imagens duplas que resultam da pressão num olho; e muitas outras
aparências de natureza semelhante. Estes tópicos cépticos, de facto, são
apenas suficientes para provar que não se deve, implicitamente,
depender apenas dos sentidos, mas que devemos corrigir a sua evidência
pela razão e por considerações derivadas da natureza do meio, da
distância do objecto e da disposição do órgão, a fim de deles fazer,
dentro do seu âmbito, os critérios genuínos da verdade e da
falsidade. Há outros argumentos mais profundos contra os sentidos, que
não acatam uma solução tão fácil.
118. Parece
evidente que os homens são levados, por um instinto ou predisposição
natural, a depositar fé nos sentidos; e que, sem qualquer raciocínio ou
mesmo quase antes do uso da razão, supomos sempre um universo externo,
que não depende da nossa percepção, mas existiria, ainda que nós e todas
as criaturas sensíveis estivessem ausentes ou fossem aniquiladas. Até
mesmo o mundo animal é governado por uma opinião semelhante e preserva a
crença dos objectos externos em todos os seus pensamentos, intenções e
acções.
Parece também
evidente que, ao seguirem este cego e poderoso instinto da natureza, os
homens supõem sempre que as próprias imagens, apresentadas pelos
sentidos, são os objectos externos e nunca alimentam qualquer suspeita
de que umas nada são excepto representações dos outros. Pensa-se que
esta mesa aqui, que vemos ser branca e cuja dureza sentimos, existe
independentemente da nossa percepção e é algo de externo à nossa mente,
que a percebe. A nossa presença não lhe confere o ser; a nossa ausência
não a aniquila. Ela salvaguarda a sua existência uniforme e inteira,
independentemente da situação dos seres inteligentes, que a percebem ou
contemplam.
Esta opinião
universal e primitiva de todos os homens, porém, cedo é destruída pela
filosofia mais trivial, a qual nos ensina que nada pode estar presente à
mente a não ser uma imagem ou percepção, e que os sentidos são apenas as
entradas por onde as imagens são transportadas, sem conseguirem suscitar
uma comunicação imediata entre a mente e o objecto. A mesa que vemos
parece diminuir, à medida que dela mais nos afastamos, mas a mesa real,
que existe independente de nós, não sofre nenhuma alteração; não
passava, pois, da sua imagem, que estava presente à mente. Eis os óbvios
ditames da razão; e nenhum homem que reflicta, alguma vez duvidou que as
existências, por nós consideradas ao dizermos esta casa e
aquela árvore, são unicamente percepções na mente e cópias ou
representações fugidias de outras existências, que permanecem uniformes
e independentes.
119. Até agora,
pois, somos forçados pelo raciocínio a contradizer ou a apartar-nos dos
instintos primitivos da natureza e a adoptar um novo sistema em relação
à evidência dos sentidos. Mas a filosofia encontra-se aqui extremamente
embaraçada, ao ter de justificar este novo sistema e neutralizar as
cavilações e as objecções dos cépticos. Não mais pode defender o
instinto infalível e irresistível da natureza, porque isso nos levou a
um sistema completamente diferente, que se reconhece ser falível e até
erróneo. E justificar o pretenso sistema filosófico por meio de uma
cadeia de argumentos claros e convincentes, ou mesmo mediante uma
aparência de argumentação, excede o poder de toda a capacidade humana.
Mediante que
argumento se pode demonstrar que as percepções da mente devem ser
causadas por objectos externos, totalmente diferentes delas embora com
elas se parecendo (se isso é possível) e que não podiam surgir ou da
energia da própria mente, ou da sugestão de algum espírito invisível e
desconhecido, ou de uma outra causa ainda mais incógnita para nós?
Sabe-se que, de facto, muitas das percepções não brotam de algo externo,
como nos sonhos, na loucura e noutras doenças. E nada pode ser mais
inexplicável do que a maneira como o corpo tem de agir sobre a mente, a
fim de transmitir uma imagem de si mesmo a uma substância de natureza
supostamente tão diversa e mesmo contrária.
É uma questão de
facto se as percepções dos sentidos são produzidas por objectos
externos, a elas semelhantes: como irá decidir-se tal questão? Pela
experiência, certamente, como todas as outras questões de natureza
similar. Mas, aqui, a experiência é e deve ser inteiramente muda. A
mente nunca tem algo presente a si a não ser as percepções e,
possivelmente, não pode obter qualquer experiência da sua conexão com os
objectos. Por conseguinte, a suposição de uma tal conexão é desprovida
de todo o fundamento no raciocínio.
120. Recorrer à
veracidade do Ser supremo para demonstrar a veracidade dos nossos
sentidos é, sem dúvida, realizar um circuito muito inesperado. Se a sua
veracidade estivesse nesta matéria deveras implicada, os nossos sentidos
seriam totalmente infalíveis, porque não é possível que Ele nos possa
enganar. Sem falar em que, se o mundo externo se puser uma vez em
questão, não saberemos como arranjar argumentos pelos quais possamos
provar a existência desse Ser ou de algum dos seus atributos.
121. Eis, pois,
um tópico em que os cépticos mais profundos e mais filosóficos sempre
triunfarão, ao tentarem introduzir uma dúvida universal em todos os
objectos do conhecimento e da inquirição humana. Segues os instintos e
as inclinações da natureza, podem eles dizer, ao dares o assentimento à
veracidade dos sentidos? Mas estes levam-te a crer que a própria
percepção ou imagem sensível é o objecto externo.
Rejeitas este
princípio a fim de adoptares uma opinião mais racional, segundo a qual
as percepções são apenas representações de algo externo? Apartas-te
aqui das inclinações naturais e de sentimentos mais óbvios; e, no
entanto, não conseguem satisfazer a tua razão, que jamais pode
encontrar um argumento convincente derivado da experiência para provar
que as percepções têm uma conexão com os objectos externos.
122. Há outro
tópico céptico de natureza semelhante, proveniente da filosofia mais
profunda, que podia merecer a nossa atenção, se ele fosse necessário
para mergulhar tão fundo a fim de descobrirmos os argumentos e
raciocínios, que muito pouco podem servir para algum propósito. É
universalmente admitido pelos investigadores modernos que todas as
qualidades sensíveis dos objectos, como a dureza, a brandura, o calor, o
frio, a brancura, o preto, etc., são meramente secundárias e não
existem nos próprios objectos, mas são percepções da mente, sem
arquétipo ou modelo externo, que elas representam. Se isto se aceita
relativamente às qualidades secundárias, deve também seguir-se no
tocante às supostas qualidades primárias da extensão e da solidez; as
últimas não podem ter um direito maior a esta denominação do que as
primeiras. A ideia de extensão é plenamente adquirida a partir dos
sentidos da vista e do tacto; e, se todas as qualidades, percebidas
pelos sentidos, estão na mente e não no objecto, a mesma conclusão deve
abarcar a ideia de extensão, que é totalmente dependente das ideias
sensíveis ou das ideias de qualidades secundárias. Nada nos pode livrar
desta conclusão, excepto a asserção de que as ideias das qualidades
primárias se obtêm por abstracção, uma opinião que, se a
examinarmos com rigor, acharemos ininteligível e até absurda. Uma
extensão, que não é nem tangível nem visível, não consegue
possivelmente conceber-se; e uma extensão tangível ou visível, que não é
nem dura nem macia, nem preta nem branca, encontra-se igualmente para
além do âmbito da concepção humana. Que um homem tente conceber um
triângulo em geral, que não é nem isósceles nem escaleno,
nem tem qualquer comprimento particular ou proporção dos lados, e
depressa perceberá a absurdidade de todas as noções escolásticas
relativamente à abstracção e às ideias gerais.
123. Portanto, a
primeira objecção filosófica à evidência dos sentidos ou à opinião da
existência externa consiste no facto de que uma tal opinião, se firmada
no instinto natural, é contrária à razão e, se referida à razão, é
contrária ao instinto natural e, ao mesmo tempo, não traz em si nenhuma
evidência racional para convencer um inquiridor imparcial. A segunda
objecção vai mais além e representa essa opinião como contrária à
razão; pelo menos, se for um princípio da razão que todas as qualidades
sensíveis se encontram na mente, e não no objecto. Despojai a matéria de
todas as suas qualidades inteligíveis, primárias e secundárias,
aniquilai-a de alguma maneira e deixai apenas um certo algo
desconhecido, inexplicável, como causa das nossas percepções; uma noção
tão imperfeita que nenhum céptico pensará que vale a pena lutar contra
ela.
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