|
Pensemos outra vez
numa afirmação como ‘Nenhum objecto pode viajar mais depressa do que a
luz’. As afirmações das ciências empíricas são afirmações do género
desta: afirmações que se referem ao mundo que podemos observar pelos
sentidos ou que podemos inferir a partir de observações e medições
complicadas realizadas com instrumentos como um espectrómetro ou um
radiotelescópio. Mas por mais que façamos medições e observações não
iremos descobrir se os animais têm direitos, nem se Deus existe, nem se
há números.
Ao contrário da
física e da biologia, a filosofia não tem um carácter empírico; é um
estudo conceptual. Neste aspecto, a filosofia é mais parecida com a
matemática, que também não é uma disciplina empírica. Mas a filosofia
distingue-se da matemática por várias razões. Em primeiro lugar, não
dispõe de métodos formais de demonstração, como a matemática; em segundo
lugar, não se ocupa do tipo de problemas de que se ocupa a matemática.
Mas de que tipo de problemas se ocupa afinal a filosofia?
Uma vez mais, o
melhor é dar exemplos e apontar algumas das características mais
salientes dos problemas filosóficos típicos. Pensemos, por exemplo, em
Deus. Os cristãos têm uma dada concepção de Deus, os muçulmanos outra e
os hindus outra ainda. E há muitas mais, tantas quantas as religiões. As
religiões partem de certas verdades reveladas pelos seus profetas e
inscritas nos seus livros sagrados; procuram descobrir a verdadeira
natureza de Deus e encontrar o caminho da salvação. Mas nada disso são
problemas filosóficos. A filosofia não cultiva dogmas, como a religião;
a filosofia faz o contrário: procura destruir dogmas. Os cristãos,
muçulmanos e hindus, partem do princípio de que existe Deus. A filosofia
pergunta: mas que razões temos para pensar que existe Deus? E, admitindo
que existe um deus sumamente bom e criador, omnisciente e omnipotente,
como se explica a existência do mal? A filosofia faz as perguntas
difíceis que muitas pessoas gostariam de calar, e que efectivamente têm
muitas vezes conseguido calar ao longo da infeliz história humana.
Podemos dizer, poeticamente, que a filosofia é um grito de liberdade
contra a opressão do dogma. E nisto, uma vez mais, a filosofia é
semelhante à ciência.
O que distingue os
problemas da filosofia dos problemas da ciência é o seu carácter
conceptual, a sua generalidade e a inexistência de fronteiras precisas.
Os problemas da matemática são também bastante gerais e em grande medida
conceptuais – mas têm fronteiras muito precisas. Não se pode
determinar matematicamente se os animais têm direitos; não se pode
determinar matematicamente se Deus existe – e nem sequer se pode
determinar matematicamente se os números existem independentemente de
nós. Qualquer problema com suficiente generalidade, de carácter
conceptual e para a solução do qual não exista qualquer ciência pode ser
um problema filosófico. Os problemas da matemática têm fronteiras muito
claras: têm de poder ser resolvidos pelos métodos formais da matemática.
Em filosofia, pelo contrário, não há métodos formais para resolver
problemas.
[...]
Uma das
características da filosofia é o facto de não ser uma investigação
empírica, como já sublinhei; para saber se os animais têm direitos ou se
Deus existe, não tenho de fazer trabalho científico de campo, não tenho
de fazer experiências em laboratórios, nem tenho de elaborar inquéritos,
nem tenho de fazer estatísticas; limito-me a pensar. Posso ter de usar
dados empíricos fornecidos pelas ciências; mas não compete à filosofia
fazer o levantamento desses dados.
Este modo de
proceder tradicional da filosofia, que resulta da sua natureza
conceptual, acaba por contribuir para pseudo-investigações de quem não
sabe distinguir os problemas susceptíveis de serem estudados pela
filosofia dos problemas que só com alguma investigação empírica podem
ser abordados de forma respeitável.
Repare-se na
seguinte distinção crucial. Todos nós temos opiniões sobre vários
aspectos do mundo que nos rodeia. Eu vou a um país estrangeiro e formo
uma ideia intuitiva sobre o carácter das pessoas desse país,
comparando-as com as pessoas do meu próprio país. A formação deste tipo
de opiniões é inevitável; mas não se pode confundir isto com ciência.
Ninguém pode dizer, só porque visitou durante 3 anos a Índia, que os
indianos são em geral mais honestos do que os portugueses. Este
resultado não oferece quaisquer garantias; é suficiente para animar
conversas de café com os nossos amigos; mas basear um estudo sério sobre
estas observações não sistemáticas é uma tolice.
Se temos de basear
uma reflexão filosófica sobre dados empíricos, esses dados empíricos têm
de ser fidedignos; não podem resultar da mera observação de senso comum.
|