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2.1 A Descrição Tradicional
A descrição corrente do
conhecimento, em torno da qual todos os trabalhos recentes têm sido
elaborados, define o conhecimento como crença verdadeira justificada;
defende que a conhece que p se e só se
1 p,
2 a crê que p,
3 a crença de a de que p
é justificada.
Como existem três partes nesta
definição, ela é chamada a definição tripartida ou descrição tripartida;
define o conhecimento proposicional, conhecimento de (que) p; não define
o conhecimento por trato como em «a conhece James» nem o conhecimento do
como, p. ex. conhecimento de como andar de bicicleta, a não ser que se
demonstre que estes se possam reduzir a conhecimento-de-que.
A definição tripartida tem atractivos
óbvios. A primeira condição, que, se a conhece que p,
então p é verdadeiro (o que pode ser lido como Kap->p),
é normalmente considerada estipulativa. A segunda condição, que, se a
conhece que p, então a crê que p (podemos ler isto
como Kap->Bap), mínima, e a terceira, que, se a conhece
que p, então a sua crença de que p é justificada (Kap->JBap),
encontra-se aí para impedir qualquer conjectura fortuita de ser
considerada conhecimento no caso de a pessoa que conjectura ser
suficientemente confiante para crer na sua própria conjectura. Vale
contudo a pena notar uma consequência desta justificação da condição 3;
é ela que uma crença não é geralmente considerada justificada pelo mero
facto de ser verdadeira, pois de outro modo a condição 3 seria
desnecessária. Se eu decidir, atirando uma moeda ao ar, qual o
investimento que dará maior lucro, e se vier afortunadamente, a
verificar ter razão, supomos que o valor da minha escolha é talvez
demonstrado pelo resultado, mas ela não é justificada por esse
resultado; eu não tinha qualquer justificação real para fazer a escolha
que fiz. (Podíamos alternativamente distinguir entre duas formas de
justificação, antes e depois do acontecimento, e passar a definição
tripartida em termos da primeira; mas então a questão passaria a ser se
elas são realmente duas formas da mesma coisa.)
Quais são os problemas da definição
tripartida? Poder-se-ia pensar que a segunda condição é insuficiente:
crer que p não é tão forte como ter a certeza de que p, e para
conhecer é preciso ter a certeza, não apenas crer.
A melhor razão para querermos alguma
descrição de certeza na nossa análise do conhecimento, é o facto de as
pessoas se mostrarem, com razão, hesitantes em afirmar o
conhecimento quando não estão bem certas. Esta hesitação parece dever-se
a algo acerca do que o conhecimento é, e não existe maneira óbvia de
explicá-lo se o conhecimento for como a concepção tripartida afirma que
ele é. Assim, embora seja normalmente sugerido que a noção de certeza é
relevante para a análise de afirmações de conhecimento, mas não
para a análise do conhecimento em si (p. ex., in Woozley, 1953), isto
não nos deixa qualquer hipótese de explicar porque é que a certeza deva
ser requerida antes de se poder afirmar conhecimento quando ela não é
requerida para o conhecimento em si, i. e., para a existência daquilo
que se afirma.
Como vamos descobrir outras razões
para rejeitar a definição tripartida, não temos qualquer razão para
aprofundar aqui este ponto. A moral a tirar é a de que, se pretendemos
dar uma descrição do conhecimento que não inclua uma exigência de
certeza, a nossa descrição devia algures ter lugar para a noção de
certeza; se ela encara a certeza como um requisito para uma afirmação de
conhecimento tem de ser capaz de explicar nos seus próprios termos por
que motivo deveria ser assim.
Mas por que haveríamos de ter
relutância em mudar a segunda condição para «a tem a certeza de
que p»? A resposta é que estamos preparados, em circunstâncias
que não são particularmente invulgares, para aceitar que alguém possui
de facto conhecimento quando essa pessoa está tão longe de ter a
certeza, que não ousaria afirmar ela própria o conhecimento. O exemplo
clássico oferecido é o do colegial hesitante, que aprendeu por exemplo
as datas dos reinados dos soberanos ingleses na noite anterior, mas que
fica tão alarmado com o autoritarismo do seu professor, que fica
completamente inseguro de que as respostas que lhe ocorrem quando
interrogado sejam de facto as correctas. Supondo, todavia, que essas
respostas estejam correctas, não aceitaríamos que ele as conhece, ainda
que ele próprio pudesse não fazer tal afirmação? E as razões que
possamos ter para aceitar isto estão decerto próximas das sugeridas pela
definição tripartida; ele tem a resposta correcta, e não é por acaso.
Há uma fraqueza neste recurso ao
colegial hesitante, que mais uma vez se prende com a segunda condição.
Na medida em que o colegial não tem bem a certeza das respostas que lhe
ocorrem, poderemos aceitar que ele ainda crê nelas? Se não tivermos
cuidado, a utilização deste exemplo para rebater as pretensões de uma
condição de certeza resultará na nossa perda da condição de crença que
estamos a tentar defender.
2.2 Os Exemplos Contrários de
Gettier
Henry está a ver televisão numa
tarde de Junho. Assiste à final masculina de Wimbledon e, na televisão,
McEnroe vence Connors; o resultado é de dois a zero e «match point» para
McEnroe no terceiro «set». McEnroe ganha o ponto. Henry crê
justificadamente que
1 acabei de ver McEnroe ganhar a
final de Wimbledon deste ano, e infere sensatamente que
2 McEnroe é o campeão de Wimbledon
deste ano.
No entanto, as câmaras que estavam em
Wimbledon deixaram na realidade de funcionar, e a televisão está a
passar uma gravação da competição do ano passado. Mas enquanto isto
acontece, McEnroe está prestes de repetir a retumbante vitória do ano
passado. Portanto a crença 2 de Henry é verdadeira, ele tem decerto
justificação para nela crer. Contudo, dificilmente aceitaríamos que
Henry conhece 2.
Este tipo de exemplo contrário à
descrição tripartida do conhecimento é conhecido como exemplo contrário
de Gettier, segundo E. L. Gettier (1963). (Devo este exemplo específico
a Brian Garrett.) Gettier argumentava que eles mostram que a descrição
tripartida é insuficiente; é possível que alguém não conheça, mesmo que
as três condições sejam realizadas.
Gettier não põe aqui em causa nenhuma
das três condições. Aceita que elas são individualmente necessárias, e
apenas argumenta que precisam de ser complementadas.
Vale a pena formalizar a situação,
por razões que serão evidentes mais tarde. Lendo 1 como p e 2 como q,
temos:
~p, Bap, JBap,
p->q, JBa (p->q), q, Baq,
JBaq.
O exemplo contrário de Gettier é por
conseguinte um exemplo em que a tem uma crença justificada mas falsa por
inferência a partir da qual ele justificavelmente crê que algo que
acontece é verdadeiro, e chega deste modo a uma crença verdadeira
justificada que não é conhecimento.
Que resposta poderá ser dada a estes
infames mas ligeiramente irritantes exemplos contrários? Parece haver
três vias possíveis:
1 encontrar algum meio de demonstrar
que os exemplos contrários não funcionam;
2 aceitar os exemplos contrários e
tentar encontrar um complemento à análise tripartida que os exclui;
3 aceitar os exemplos contrários e
alterar a análise tripartida para os incluir em vez de lhe acrescentar o
que quer que seja.
O restante prende-se com a primeira
via.
Em que princípios de inferência se
baseiam estes exemplos contrários? O próprio Gettier apresenta dois.
Para que os exemplos funcionem, deve ser possível que uma crença falsa
continue a ser justificada; e uma crença justificada deve justificar
qualquer crença que ela implique (ou que se creia justificadamente que
implique). Este último é precisamente o princípio da oclusão POj
acima mencionado na discussão do cepticismo (1.2). Portanto, se
pudéssemos mostrar que POj é falso, isto teria o duplo efeito
de destruir os exemplos contrários de Gettier bem como (pelo menos em
parte) o primeiro argumento céptico. Poderia ser, contudo, possível
construir novas variantes do tema Gettier que não se baseiam na
inferência ou numa inferência deste tipo, como veremos a seguir, e sendo
assim não há queixas acerca do PO% ou de outros princípios que venham a
ser muito eficientes.
Uma coisa que não podemos fazer é
rejeitar os exemplos contrários de Gettier como forjados e artificiais.
São perfeitamente eficientes nos seus próprios termos. Mas poderíamos
sensatamente perguntar de que serve cansar o cérebro a descobrir uma
definição aceitável de «a sabe que p». Será isto mais do
que um mero exercício técnico? O que nos desconcertaria no facto de não
conseguirmos elaborar uma definição à prova de problemas? Muitas das
inúmeras dissertações escritas em resposta a Gettier dão a impressão de
que responder a Gettier é uma espécie de jogo filosófico privado, que
não tem qualquer interesse a não ser para os jogadores. E não nos
demonstrou afinal Wittgenstein que um conceito pode ser perfeitamente
legítimo sem ser definível, argumentando que não é indispensável que
exista qualquer elemento comum a todos os casos de uma propriedade (p.
ex. casos de conhecimento) para além do facto de serem casos (p. ex. de
que são conhecimento)? (Cf. Wittgenstein, 1969b, pp. 17-18, e 1953, §§
66-7.) Então o que é que poderia afinal depender do nosso êxito ou
malogro para descobrir condições necessárias e suficientes para o
conhecimento?
Simpatizo sob vários aspectos com o
tom geral desta queixa, como depressa se tornará evidente. O que me
entusiasma na procura de uma resposta a Gettier é a sensação de que
talvez seja possível encontrar uma descrição do que é o conhecimento,
que venha a ter um efeito substancial no que dissermos sobre a
justificação em partes ulteriores deste livro. Isto podia acontecer de
duas maneiras ou através da qualquer delas. Podíamos encontrar uma
descrição do que é o conhecimento, que bastasse para destruir atitudes
cépticas cruciais, e consequentemente confirmar a possibilidade de
algumas das nossas crenças serem justificadas; a descrição que tento
apoiar no capítulo 3 tem pretensões . neste sentido. Ou podíamos tentar
definir a justificação em termos de conhecimento. Por exemplo, podíamos
supor que uma crença é justificada se e só se em certas circunstâncias
(a especificar) fosse conhecimento. (Jennifer Hornsby deu-me esta
ideia.) Entretanto devemos considerar algumas descrições do conhecimento
que parecem menos frutuosas.
2.3 Respostas a Gettier
Evitei de maneira bastante óbvia,
tanto quanto me foi possível, apresentar sequer a diagnose mais
aproximativa do defeito na análise tripartida exposta por Gettier. Isto
porque as diferentes respostas a Gettier emanam todas de diferentes
diagnoses das carências da análise tripartida; uma vez que se saiba o
que falta, devia ser uma questão bastante simples provê-la.
A presença de falsidade pertinente
A diagnose mais óbvia é simplesmente
a de que a crença inicial de que p, de que se infere a crença
justificada verdadeira de que q, é falsa. Assim, poderíamos
acrescentar à análise tripartida a quarta condição de que nada pode ser
conhecido que seja inferido de uma crença falsa, ou de um grupo de
crenças de que uma seja falsa. Esta simples sugestão peca por dois
motivos. Primeiro, podem escrever-se variantes do tema de Gettier nas
quais, embora exista falsidade, não há inferência. Suponham que eu creio
que se encontra uma ovelha num campo próximo por causa do que vejo. Não
infiro do que vejo que está uma ovelha no campo; creio simplesmente que
há lá uma. O animal que vejo é um grande cão peludo, mas a minha crença
não é falsa, porque também lá está uma ovelha, que eu ignoro, oculta
pela sebe. Aqui poderíamos admitir que a minha crença é verdadeira e
justificada, mas recusarmo-nos a aceitar que eu sei que existe uma
ovelha no campo. (Este exemplo vem de Chisholm, 1977, p. 105.)
Uma das réplicas poderia ser que eu
estou certamente a inferir que vejo uma ovelha no campo a partir do meu
conhecimento dos meus actuais estados sensoriais. Esta réplica levanta
vastos pontos controversos; mas o capítulo 5 contém um aturado argumento
que diz que se existe algum conhecimento não-inferencial, )arte dele
refere-se a outras coisas que não os nossos estados dos sentidos -
porque não então ovelhas, por exemplo?
O segundo defeito é o de que a
sugestão é demasiado forte e pode tomar-nos impossível conhecer o que
quer que seja. Como veremos, é um perigo de uma série de respostas a
Gettier. No caso presente, todos nós sofremos de numerosas crenças
falsas que têm algum papel dos nossos processos inferenciais, e portanto
nesta sugestão nenhuma das nossas presentes crenças justificadas
contaria como conhecimento.
Para eliminar estes defeitos temos de
remover a referência à inferência, e reforçar a relação especificada
entre as crenças falsas e as verdadeiras justificadas, que não devem
contar como conhecimento. Deste modo poderíamos simplesmente requerer
uma ausência de falsidade pertinente. Isto fugiria ao exemplo da ovelha
no campo porque eu presumivelmente creio (falsamente) que o animal que
posso ver é uma ovelha ainda que esta crença não seja utilizada em
inferência. Mas como sugestão parece mais atribuir um nome à dificuldade
do que resolvê-la: quais as crenças falsas que devem ser consideradas
pertinentes?
Uma resposta poderia ser a de que uma
crença falsa de (que) p é pertinente no sentido pretendido se,
tendo o crente acreditado em vez disso que, ~p, a sua crença de
que q deixaria de ser justificada. Nem todas as crenças falsas
são pertinentes neste sentido. Algumas serão tão remotas ou
insignificantes que o facto de uma pessoa crer nelas ou no seu contrário
não teria qualquer efeito naquilo que uma pessoa crê aqui. Por exemplo,
entre as crenças em virtude das quais eu afirmo conhecer que Napoleão
foi um grande soldado, pode haver uma que é falsa, mas que é tão
insignificante que a minha justificação em crer que Napoleão foi um
grande soldado sobreviveria à minha mudança de opinião nesse aspecto
particular. Semelhante crença falsa não seria pertinente no nosso caso
presente.
Mas a nova descrição defronta-se com
dificuldades, que podem ser ilustradas por um exemplo. Suponhamos que eu
espero que uma colega me dê boleia para casa esta noite, mas que o carro
dela está sem bateria; isto não constituirá dificuldade, porque o carro
de um amigo se encontra convenientemente perto com alguns cabos que
podemos utilizar para pôr o carro dela a trabalhar. Creio agora que ela
me dará uma boleia esta noite, e esta crença é justificada. Sei que ela
me dará uma boleia? O requisito de não haver crenças falsas pertinentes
sugere plausivelmente que o facto de eu saber depende das outras crenças
que possa ter. Mas esta sugestão levanta dificuldades. Se, por exemplo,
eu creio meramente
1 que ela me dará uma boleia esta
noite.
Pode ser-me dado conhecer isto, mas
se creio simultaneamente (em) 1 e
2 que o carro dela não está sem
bateria,
não posso, uma vez que tenho uma
falsa crença pertinente. Mas se, ao mesmo tempo que creio em 1 e 2, por
acaso também creio
3 que o carro de um amigo se encontra
convenientemente perto com cabos,
então esta crença aparentemente
gratuita torna de novo possível que eu saiba que terei uma boleia. Pois
se tivesse acreditado no contrário de 2, a minha primeira crença não
seria justificada, anão ser que eu também acreditasse em qualquer coisa
como 3. Parece, pois, que a nossa presente sugestão tem por efeito que,
o facto de eu ter ou não conhecimento dependerá vulgarmente das outras
crenças aparentemente gratuitas que possa ter. Há qualquer coisa de
insatisfatório nisto, e é preciso mais trabalho para defender a
descrição contra queixas deste tipo.
Anulabilidade / Revogabilidade
Uma abordagem ligeiramente diferente
analisa os exemplos contrários de Gettier dizendo que surgem porque há
algumas verdades que teriam destruído a justificação do crente se ele
acreditasse nelas (cf. Lehrer e Paxson, 1969; Swain, 1974). Assim, por
exemplo, suponham que Henry tinha acreditado estar a assistir a uma
gravação da final de Wimbledon do ano passado, tal como na realidade
estava; nesse caso, a sua justificação para a sua crença de que p e,
consequentemente, através do PCj, para a sua crença de que
q, teria sido destruída. A sugestão é então acrescentar uma quarta
condição exigindo que não haja nenhuma outra verdade tal, que o facto de
Henry crer nela destruísse a sua justificação para crer que q.
Esta é a sugestão de revogabilidade; requeremos para o conhecimento que
a justificação seja irrevogável, i. e., que a adição de outras verdades
não a revogue.
Isto não implicará que uma crença
falsa não seja nunca justificada, uma vez que a sugestão é a de que,
embora algumas crenças sejam revogavelmente justificadas, requeremos a
justificação irrevogável para o conhecimento. Contudo, corre o perigo de
tornar a primeira condição para o conhecimento (Kap -> p)
redundante. É como se uma crença falsa nunca pudesse ser
irrevogavelmente justificada dado que haveria sempre alguma verdade
(ainda que fosse apenas a negação da crença falsa) cuja adição
destruiria a justificação. Mas talvez isto seja uma força da teoria e
não uma fraqueza, uma vez que a nova análise quadripartida possuirá uma
coerência que antes faltava; fornece uma explicação na quarta condição
daquilo que antes era incluído por mera estipulação, que o conhecimento
requer verdade.
Pode afirmar-se que a sugestão de
revogabilidade fornece uma extensão do requisito anterior, de que não
haja falsidades pertinentes; olhamos agora para além das proposições de
que o crente está realmente convicto, para proposições que teriam um
efeito se se acreditasse nelas. Mas esta extensão não constitui uma
vantagem real. O tipo de dificuldade com que depara a noção de
revogabilidade, pode uma vez mais ser ilustrada por um exemplo. Assim,
creio talvez que os meus filhos se encontram agora mesmo a brincar em
casa no jardim, e tenho boas razões para esta crença. Contudo, sem que
eu o saiba, um vizinho foi até lá depois de eu ter saído de casa esta
manhã para convidar as crianças para irem passar a manhã a casa dele. E
se eu tivesse sabido isto, a minha justificação para crer que elas estão
a brincar em casa seria anulada, porque eu também creio que elas
normalmente aceitam esse tipo de convites. No entanto, a minha mulher
tem estado preocupada com a saúde de uma delas e recusou o convite.
Saberei eu que os meus filhos estão a brincar no jardim em casa? Se a
sua intuição é que sim, sei, deve rejeitar o critério de revogabilidade
de acordo com o agora formulado. Se é a de que não sei com base no facto
de que se tivesse sabido do convite a minha justificação teria sido
anulada, tem o dever de dar uma descrição do porquê (que eu desconheço)
da verdade de que a minha mulher recusou o convite não conseguir
restabelecer de algum modo o equilíbrio. De qualquer das formas, a
proposta de revogabilidade tem de ser alterada.
O problema parece residir, tal como
residia em relação ao requisito de que não pode haver falsidade
pertinente, na forma como novas crenças podem ser acrescentadas pouco a
pouco e destruir a justificação existente, ao passo que existem ainda
outras verdades à espera em fundo para anular o elemento anulador?
Primeiro queremos perguntar se, seja como for, não é provável que exista
sempre alguma verdade que, se só ela fosse acrescentada e todas as
outras excluídas, anulasse a minha justificação. Mesmo que isto não
acontecesse sempre, acontecerá por certo com frequência suficiente para
que o alcance do meu conhecimento seja consideravelmente reduzido, e
isto em si é já uma espécie de objecção. Em segundo lugar, precisamos de
encontrar uma maneira de contradizer o modo como a adição pouco a pouco
de outras verdades parece ligar-me e depois desligar-me do conhecimento.
Poderíamos conseguir realizar a
segunda tarefa alterando a nossa descrição de revogabilidade de forma a
que, em vez de falarmos de alguma outra verdade (que pouco a pouco
causou o problema da adição), falemos acerca de todas as verdades sejam
elas quais forem. Assim poderíamos requerer como quarta condição que a
nossa justificação fosse mantida, mesmo quando todas as verdades são
acrescentadas em simultâneo ao nosso conjunto de crenças. Esta nova
noção de revogabilidade parece (provavelmente) permitir que eu sei agora
que os meus filhos estão a brincar no jardim, porque a segunda verdade
acrescentada nega os poderes anuladores da primeira. Mas restam ainda
problemas para esta nova noção de revogabilidade. Primeiro, ao falar de
acrescentar todas as verdades ao mesmo tempo, parece que passámos
claramente ao domínio da ficção. Com efeito, teremos alguma concepção
adequada de «todas as verdades»? Segundo, parece, por este critério,
nunca teremos mais do que a mais leve das razões para crer que
conhecemos alguma coisa; pois ao crer isto estamos a crer que, quando
todas as verdades lá estiverem, a nossa justificação manter-se-á, e
parece ser necessário muito mais para sustentar essa crença do que o que
é necessário para sustentar uma vulgar afirmação de conhecer.
Fiabilidade
Uma abordagem diferente desvia a
nossa atenção da relação entre a proposição afirmada como conhecimento e
outras crenças falsas que deviam ter sido verdadeiras ou outras verdades
em que se devia ter acreditado. Foi por vezes sugerido que uma crença
verdadeira justificada pode ser conhecimento quando deriva de um método
fidedigno (ver Goldman, 1976; Armstrong, 1973, cap. 13; Swain, 1981). No
exemplo de Gettier, Henry sabe de facto que a final de Wimbledon está a
ser disputada nessa tarde; esta crença verdadeira justificada deriva do
método seguro de ler os jornais, que estão normalmente correctos em
relação a este tipo de coisa. No entanto, a sua crença de que q deriva
nitidamente de um método que é menos que fidedigno. Tê-lo-ia induzido em
erro neste ponto, se McEnroe tivesse sofrido um lapso momentâneo e
sucumbido aos esforços de Connors desta vez.
A abordagem da fiabilidade pode ser
mais elaborada; de certa forma está relacionada de perto com a abordagem
causal considerada a seguir, porque nos é nitidamente devida uma
descrição do que é a segurança, e uma resposta causal é tentadora (ver,
p. ex., Goldman, 1979). No entanto, podemos já ver dificuldades para
qualquer variação desta abordagem. Corre o perigo, ou de tornar o
conhecimento impossível, ou de ir direito a um dos nossos argumentos
cépticos.
Por fidedigno estamos a referir-nos a
um método adequado, se devidamente seguido, é perfeitamente fidedigno e
nunca conduz a uma crença falsa. Mas, independentemente da dificuldade
geral de distinguir entre um defeito no método e um defeito na maneira
como o método foi aplicado, parece improvável que existam quaisquer
métodos perfeitamente fidedignos de adquirir crenças. O homem é falível,
e a sua falibilidade manifesta-se não apenas no modo como os métodos são
utilizados, mas nos métodos de recolha de crenças de que dispõe. Logo,
se o conhecimento requer um método infalível ou perfeitamente seguro, é
impossível.
Mas se nos afastarmos da noção de
fiabilidade perfeita e requerermos apenas que o método seja geralmente
fidedigno, convidamos aos argumentos cépticos do nosso segundo tipo.
Como é que um método que falhou algures em circunstâncias
pertinentemente semelhantes é suficiente para permitir conhecimento
desta vez? Se tínhamos alguma esperança de que a nossa eventual
descrição do conhecimento nos ajudasse a rejeitar os argumentos
cépticos, esta descrição particular parece tornar as coisas piores e não
melhores. E claro que isto não demonstrará que a descrição está errada.
Pode ser que a descrição correcta do conhecimento dê infelizmente ao
céptico a oportunidade de que ele está à espera. Mas não deveríamos
aceitar que é assim que as coisas são antes de nos convencermos de que
não há outra descrição do conhecimento que ofereça ao céptico menos
vantagem. Podemos ainda ter esperança numa que lhe complique a vida em
vez de lha facilitar.
Um afastamento final seria requerer
apenas que o método seja seguro desta vez. Isto tem o efeito de desviar
a nossa atenção de casos anteriores em que o método falhou e, logo, de
escapar ao argumento céptico que tem nesses casos o seu ponto de
partida. Mas poderíamos sensatamente duvidar de que o requisito de que o
método seja seguro equivalha desta vez a qualquer adição genuína à
descrição tripartida. Se a fiabilidade for definida em termos da
produção de verdade, nada acrescenta à primeira condição desde que
restrinjamos a nossa atenção ao caso particular. Se for definida em
termos de justificação, nada acrescenta à terceira. E não há outra
descrição que pareça convidativa. (Pode ser, no entanto, que a teoria
causal seja equivalente a uma noção de justificação no caso particular;
ver 2.4).
Razões Convincentes
Uma abordagem diferente revela a
imperfeição de Henry no caso Gettier como devendo-se ao facto de as suas
razões serem menos do que conclusivas. Se requerermos, para o
conhecimento, que a crença verdadeira justificada se baseie em razões
conclusivas, todos os casos Gettier, e na realidade qualquer caso em que
o crente esteja correcto por acidente, caem por terra.
Todo o trabalho nesta abordagem deve
centrar-se numa descrição persuasiva do que torna as razões conclusivas.
Uma sugestão seria que, onde as crenças A-M constituem razões
convincentes para a crença N, A-M não poderia ser verdadeiro se N for
falso. Isto excluirá os exemplos contrários, mas tornará também o
-conhecimento um fenómeno raro na melhor das hipóteses. O conhecimento
empírico, pelo menos, parece agora impossível; no domínio empírico, as
nossas razões nunca são conclusivas leste sentido.
Uma descrição mais fraca, que devemos
a F. Dretske (1971), sugere que as razões A-M de alguém para uma crença
N são conclusivas se e só se A-M não fossem verdadeiros se N for falso.
isto é mais fraco porque dizer que A-M não seria verdadeiro se N for
falso não é o mesmo do que dizer que não poderiam ser verdadeiros se N
for falso, como diz a descrição mais forte. É tão fraca que não chega a
fornecer um genuíno sentido de «conclusivo», mas isto não importa
grandemente. Esta descrição mais fraca parece-me prometedora na sua
abordagem geral, e a teoria que defenderei no capítulo seguinte, é
distintamente semelhante. Mas difere no facto de não falar de razões; e
isto é uma virtude porque parece de facto possível que deva haver crença
justificada sem razões. A minha crença de que estou a sofrer pode talvez
ser justificada, mas dificilmente se pode dizer que eu a baseie em
razões conclusivas ou outras. Não a baseio de forma alguma em razões.
A Teoria Causal
A. I. Goldman propõe um complemento
causal para a definição tripartida (Goldman, 1967). Uma diagnose inicial
dos exemplos contrários de Gettier pode ser a de que é apenas uma
questão de sorte que a crença justificada de Henry seja verdadeira. Esta
diagnose não pode por si fornecer uma resposta adequada. Não nos podemos
limitar a estipular que não há sorte envolvida, porque todos nós
dependemos da sorte até certo ponto. Por exemplo, o facto de o nosso
método de recolha de crenças fornecer aqui uma crença verdadeira em vez
de uma falsa, como por vezes fornece, será unicamente uma questão de
sorte quanto a nós. E evidentemente que o facto de a sorte se encontrar
sempre envolvida algures dá também um ponto de apoio ao céptico. Mas a
diagnose pode sugerir uma resposta melhor. A sugestão de Goldman é a de
que, o que tornou crença verdadeira no caso Gettier, não é o que levou
Henry a acreditar nela. Por conseguinte ele propõe, como quarta condição
para o conhecimento de que p, que o facto de p deveria
causar a crença de a de que p. Isto exclui os casos
Gettier porque neles, o facto de a crença ser verdadeira, é uma
coincidência. Queremos que um elo de ligação entre crença e verdade
impeça que isto aconteça, e um elo causal parece prometedor.
Por atraente que seja esta abordagem,
depara com dificuldades. A primeira é a de que podemos considerar
difícil supor que os factos possam causar o que quer que seja; eles são
decerto demasiado inertes para que afectem o andamento do mundo, ainda
que esse mundo seja um mero mundo mental de crenças. Afinal, o que são
factos? A primeira ideia que nos surge é a de que os factos são
semelhantes, se não idênticos, a proposições verdadeiras (o que
explicaria a razão pela qual não existem factos falsos). Mas poderão as
proposições verdadeiras causar alguma coisa? Certamente que os factos
(ou as proposições verdadeiras) reflectem o mundo mais do que o afectam.
As análises prevalecentes de causalidade parecem justificadamente
admitir apenas acontecimentos e possivelmente agentes como causas. Em
segundo lugar, há um problema acerca do conhecimento do futuro; a
sugestão de Goldman parece requerer que, ou temos um caso de causalidade
retrógrada (causando o futuro o passado), ou que o conhecimento do
futuro é impossível, uma vez que as causas não podem suceder-se aos seus
efeitos. Terceiro, há o problema do conhecimento universal, ou de uma
forma mais geral do conhecimento por inferência. A minha crença de que
todos os homens são mortais é causada, mas não pelo facto de todos os
homens serem mortais; se quaisquer factos o causam, são os factos de
este homem, aquele homem, etc.., terem morrido. E a morte destes homens
não é causada pelo facto de todos os homens morrerem (o que restauraria
a análise causal, com uma causa intermédia); mas todos os homens morrem
porque esses homens morrem (entre outros). Como pode, pois, a análise
causal mostrar que eu conheço que todos os homens morrem?
Há respostas para estas críticas,
claro. Estamos mais habituados a falar de factos como causas do que a
crítica primeira permite. O facto de os filósofos não se terem ainda
persuadido de compreender a ideia de que os factos podem ser causas, não
devia causar que nós excluíssemos todo o recurso à causalidade do facto
como filosoficamente infundado. (A frase anterior é um caso pontual).
Também a segunda crítica poderia ser respondida complicando a teoria ao
permitir que os factos fossem conhecidos em casos em que facto e crença
são efeitos diferentes de uma causa comum. A terceira crítica, parece,
contudo, mais insubmissa. A aceitação de que os factos podem ser causas
não melhorará muito a nossa predisposição para supor que os factos
universais podem causar crenças universais.
Há aspectos prometedores na teoria
causal, e a teoria que defenderei pode de facto ser encarada como uma
generalização a partir dela.
2.4. Observações Finais
As várias propostas anteriormente
consideradas foram apresentadas como se fossem adições à análise
tripartida, admitindo que Gettier mostrara que a análise fosse
insuficiente. Mas podemos encontrar entre elas pelo menos uma que pode
ser considerada como uma defesa directa da análise tripartida. Qualquer
proposta que seja equivalente a uma nova teoria da justificação pode
conseguir mostrar que nos casos Gettier as crenças verdadeiras
pertinentes não eram de todo justificadas. E podíamos considerar a
teoria causal desta maneira. A teoria causal podia estar a dizer-nos que
uma crença só é justificada quando causada (directa ou indirectamente)
pelos factos. Estaria então a adoptar a via 1, conforme distinguida em
2.2. (Algumas versões da proposta de fiabilidade também podiam ser
encaradas a esta luz.) Movendo-nos desta forma, partiríamos então de uma
teoria causal da justificação; a teoria causal do conhecimento seria
simplesmente uma das suas consequências.
Uma forma possível de argumentar
contra uma teoria causal da justificação seria afirmar que não temos
qualquer garantia de que exista apenas uma maneira de vir a justificar
as crenças, e em particular nenhuma razão real para supor que qualquer
maneira aceitável possa ser de algum modo causal, de forma que todas as
crenças justificadas (de) que p devem ser causadas por factos
pertinentes. Não queremos por certo excluir à partida a possibilidade de
que algumas crenças morais, por exemplo, sejam justificadas, fazendo-o
apenas porque não queremos admitir a existência de factos morais (se não
o quisermos). E poderíamos continuar a duvidar da existência de factos
matemáticos causalmente eficientes, sem querer com isso dizer que
nenhumas crenças matemáticas possam por isso ser justificadas.
Mais importante, todavia, é que a
sugerida descrição causal de justificação é falsa porque nega a
possibilidade de uma crença falsa ser justificada. Uma crença falsa de
que p não tem qualquer facto de que p a causá-la. Só se pode
fugir a esta objecção encontrando uma descrição diferente da
justificação de crenças falsas da que é apresentada para verdadeiras.
Mas isso não pode estar correcto. A justificação deve ser a mesma tanto
para crenças verdadeiras como para falsas, quanto mais não seja porque
podemos perguntar e decidir se uma crença é justificada (p. ex., uma
crença acerca do futuro) antes de decidirmos se é verdadeira ou falsa.
Esta crítica deixa em aberto a
possibilidade de um tipo diferente de teoria causal, nas linhas
sugeridas no final de 2.2. Com uma teoria causal do conhecimento e a
tese de que uma crença é justificada se e só sendo verdadeira fosse
conhecimento, podemos dar uma descrição causal da justificação que não é
vulnerável à existência de crenças justificadas falsas.
Leitura Adicional
As dissertações centrais na área são
de Gettier (1963), Dretske (1971), Goldman (1967) e Swain (1974).
A discussão (e rejeição) talvez mais
antiga da definição tripartida encontra-se no Teeteto de Platão (Platão,
1973, 201 c-210d).
A enorme diligência recentemente
gerada pelos defeitos encontrados na descrição tripartida é
meticulosamente analisada in Shope (1983), com inúmeras referências.
Existem evidentemente muitas abordagens e variantes de abordagens do
problema Gettier que não discuti, incluindo a do próprio Shope.
A maioria das dissertações referidas
no presente capítulo encontram-se coligidas in Pappas e Swain (1978),
que contém também uma introdução analítica da área.
Prichard (1967) faz uma interessante
e inovadora descrição das relações entre conhecimento, crença, certeza e
verdade.
Uma questão importante que não
discutimos é se o conhecimento implica crença. Para isto, cf. Ring
(1977).
As dissertações da autoria de
Gettier, Prichard e Woozley estão coligidas in Phillips Griffiths
(1967).
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