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| © António Padrão | ESAS 2003 - 2008 | Última actualização: 20-04-2008 | ||||
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Conhecimento
a priori e conhecimento
a posteriori
Conhecimento
a priori
O conhecimento
a posteriori
e a
priori são modalidades epistémicas. Uma
proposição é conhecível a priori se, e só
se, pode ser conhecida sem o concurso da experiência empírica. Assim, 2
+ 2 = 4 é uma proposição conhecível
a priori
porque posso conhecê-la recorrendo unicamente ao pensamento. Mas para
saber que a água é H2O
tenho de me socorrer da experiência empírica — não posso fazê-lo
recorrendo unicamente ao pensamento. Dada a definição de analiticidade
[uma frase é uma verdade analítica se, e só se, o significado das
palavras que nela ocorrem e a sua sintaxe for suficiente para saber que
é verdadeira], é fácil perceber que todas as frases analíticas exprimem
proposições conhecíveis
a priori. Pois se
para saber o valor de verdade de uma frase analítica basta reflectir
sobre o significado das palavras e a sintaxe da frase, isso significa
que não é necessário recorrer à experiência empírica para identificar
como verdadeira a proposição expressa.
Todo o conhecimento
proposicional é uma relação entre um agente cognitivo e uma proposição
que é por ele conhecida. Logo, também o conhecimento
a priori
é uma relação entre um agente cognitivo e uma proposição que é por ele
conhecida. Assim, um modo mais rigoroso de definir conhecimento
a priori é o
seguinte:
Posto isto,
considere-se as seguintes duas frases: 1) Se Sócrates era um
ser humano, era um ser humano. 2) Sócrates era mais
pesado do que Platão. Os recursos envolvidos
para poder conhecer o valor de verdade destas frases diferem
substancialmente. No primeiro caso, basta raciocinar; no segundo, é
preciso recolher informações históricas sobre Sócrates e Platão. No
primeiro caso, o agente cognitivo limita-se a pensar; no segundo, é
preciso consultar documentos, testemunhos e estudos.
No entanto, para que alguém
saiba que a primeira frase é verdadeira tem de compreender as palavras
que nela ocorrem. Se um polícia chinês que nada saiba de português for
confrontado com uma inscrição desta frase num bloco de notas de um
presumível assassino, terá de consultar dicionários e gramáticas, ou
falar com pessoas que saibam português. Só depois desta actividade
empírica poderá o polícia chinês perceber que a frase é verdadeira.
Todavia, isto não impede a frase 1, que exprime uma verdade lógica
elementar, de ser conhecível
a priori.
O conhecimento do
significado das palavras, apesar de claramente empírico, não torna a
frase 1 unicamente conhecível
a posteriori.
Continua a existir uma diferença crucial entre o tipo de experiência
necessário para determinar o valor de verdade das frases 1 e 2. O
conhecimento necessário para determinar o valor de verdade da frase 1 é
meramente linguístico; o conhecimento necessário para determinar o valor
de verdade da frase 2 é extralinguístico.
A experiência empírica
necessária para compreender o significado das palavras não conta. Esta
decisão não é arbitrária. Para determinar o valor de verdade de qualquer
frase, seja ela qual for, é necessário ter um conhecimento, que terá de
ser empírico, do significado das palavras envolvidas. Logo, se não
aceitássemos a nossa decisão, a categoria do conhecimento
a priori
ficaria vazia. No entanto, é óbvio que há uma diferença substancial
entre saber que se Sócrates era mortal, era mortal e saber que Sócrates
era mais pesado do que Platão. No primeiro caso não temos de possuir
qualquer informação factual além da linguística; no segundo, a
informação linguística, só por si, não é suficiente para determinar o
valor de verdade da frase. Logo, há uma distinção que deve ser mantida e
que corresponde à divisão tradicional entre conhecimento
a priori
e conhecimento
a posteriori.
Há uma excepção adicional.
As verdades da aritmética e da lógica são, tipicamente, susceptíveis de
ser conhecidas
a priori. No
entanto, podemos ser incapazes de determinar por puro raciocínio que uma
fórmula como {(p v q)
Λ
[(p ® r)
Λ
(q ®
r)]} ® r é logicamente verdadeira.
Para determinar o valor de verdade desta fórmula, podemos ter de fazer
uma tabela de verdade. Todavia, o conhecimento assim obtido é ainda
a
priori. Fazer uma tabela de verdade é
uma mera extensão da capacidade de cálculo; nada diz sobre o mundo para
além da tabela de verdade. Apesar de podermos ter de recorrer a papel e
lápis para realizar alguns cálculos complexos, como equações ou fórmulas
lógicas complexas, o resultado é conhecido
a priori.
Na tradição filosófica há
aparentemente a ideia de que o que é conhecido
a priori
por um agente, não poderia ter sido conhecido
a posteriori
por esse agente. Kripke argumenta que esta ideia está errada. Os
exemplos são muito simples: apesar de eu poder saber
a priori que a
soma de 2345 com 12445 é 14790 — porque posso fazer um cálculo mental —,
posso também conhecer
a posteriori este
resultado, através de uma calculadora, ou perguntando a alguém que tenha
feito o cálculo.
Uma rota segura para a
confusão é falar de proposições
a priori
e a
posteriori, em vez de conhecimento
a
priori ou
a posteriori.
Como vimos, o conhecimento é uma relação entre agentes cognitivos e
proposições; logo, as proposições não são primitivamente
a priori
ou a posteriori — o
que elas são é susceptíveis de serem conhecidas
a priori
ou a posteriori. A
distinção pode parecer menor, mas é crucial para evitar confusões. Uma
mesma proposição pode ser conhecida, pelo mesmo agente cognitivo ou por
diferentes agentes cognitivos, de maneiras diferentes. Por exemplo, na
escola, o meu professor pode ensinar-me o teorema de Pitágoras. O
teorema foi por mim conhecido
a posteriori.
Mais tarde, depois de aprender mais geometria, posso demonstrar por mim
mesmo o teorema; e quando faço isso passo a ter um conhecimento
a priori
do teorema. Mas há casos em que isto não pode acontecer; na escola
aprendi também que Sócrates foi condenado à morte. Mas, por mais que
pense, nunca poderei estabelecer
a priori que isso
é verdade.
O modo mais justo de
entender a distinção tradicional entre o
a priori
e o a
posteriori é o seguinte: há uma classe
de proposições que não são conhecíveis
a priori
(pelos seres humanos). Por uma liberdade de linguagem podemos dizer que
essas são proposições
a posteriori. Mas
é preciso ficar claro que se usarmos esta terminologia, somos forçados a
dizer algo que parece uma contradição: que uma proposição
a priori pode ser
a
posteriori. Espero que seja claro que
não se trata de uma contradição, mas de um facto banal: quer apenas
dizer que uma proposição da aritmética, por exemplo, pode ser conhecida
pelo pensamento puro; mas também pode ser conhecida por testemunho, caso
em que é conhecida
a posteriori. O
ponto crucial é que estas proposições que são conhecíveis
a priori
contrastam com proposições que não são conhecíveis
a priori,
como a proposição expressa pela frase «A água é H2O».
Todas as proposições conhecíveis
a priori
são conhecíveis
a posteriori; mas
há uma classe de proposições que só são conhecíveis
a posteriori.
Os filósofos tradicionais
não mostraram qualquer interesse no facto de uma proposição conhecível
a priori ser
também conhecível
a posteriori
porque talvez estivesse subentendido que estavam a falar unicamente de
«conhecimento primitivo». Neste sentido, o teorema de Pitágoras, por
exemplo, é conhecível
a posteriori, mas
não é primitivamente conhecível
a posteriori;
no princípio da cadeia causal do conhecimento, alguém teve de conhecer
a
priori o teorema de Pitágoras para
depois o poder transmitir
a posteriori a
outra pessoa. Podemos assim dizer que apesar de as verdades conhecíveis
a
priori serem derivadamente conhecíveis
a
posteriori, nenhuma verdade conhecível
a
priori é primitivamente conhecível
a
posteriori.
Neste aspecto, as ideias de
Kripke são muito mais conciliáveis com as ideias tradicionais do que
pode parecer à primeira vista. Todavia, há um aspecto no qual as ideias
de Kripke são irreconciliáveis com as teorias tradicionais. Diz-se por
vezes que Kripke defende o «necessário
a posteriori».
É preciso saber exactamente o que isto quer dizer. Uma interpretação
excessivamente fraca é que as verdades necessárias conhecíveis podem ser
conhecidas a posteriori.
Esta interpretação demasiado fraca é conciliável com as ideias
tradicionais, pois trata-se apenas da ideia de que qualquer verdade
conhecível é derivadamente conhecível
a posteriori.
A interpretação que capta o verdadeiro alcance das ideias de Kripke é a
seguinte: há verdades necessárias conhecíveis que não são conhecíveis
a
priori — como «A água é necessariamente
H2O». E esta ideia é irreconciliável com as ideias tradicionais. Todavia, a teoria de
Kripke é muito menos espantosa do que pode parecer à primeira vista.
Considere-se o seguinte argumento: Todos os seres humanos
são mortais. Sócrates era um ser
humano. Logo, Sócrates era
mortal.
A conclusão não é conhecível
a priori; no
entanto, pode ser obtida por «meios lógicos». Se pensarmos que tudo o
que se conhece por meios lógicos é conhecível
a priori,
ficamos com um enigma. Enigma que se esclarece quando temos em
consideração que não basta saber que esta conclusão se deriva
validamente das premissas em causa para saber que é verdadeira; para
saber que a conclusão é verdadeira é preciso também saber que as
premissas são todas verdadeiras. Ora, as premissas não são conhecíveis
a
priori. Logo, também a conclusão não é
conhecível
a priori.
Kripke mostrou que há um
certo tipo de verdades necessárias que só conhecemos indirectamente, por
meio de inferências em que pelo menos uma das premissas só é conhecível
a posteriori. O
problema da teoria tradicional foi não ter tido em conta que em certos
casos o conhecimento só pode alcançar-se indirectamente, por meio de uma
inferência. De facto, se pensarmos que todas as proposições conhecíveis
são susceptíveis de ser directamente conhecidas, não se vê como
poderemos conhecer verdades necessárias que não sejam lógicas ou
matemáticas — e como estas verdades são conhecíveis
a priori
somos levados a concluir que todas as verdades necessárias conhecíveis
são conhecíveis
a priori. A
teoria de Kripke não nega que todas as verdades necessárias directamente
conhecíveis sejam conhecíveis
a priori
(como as verdades da lógica e da matemática). O que nega é que todas as
verdades necessárias sejam directamente conhecíveis; defende que certas
verdades necessárias (como «A água é H2O»)
só podem ser conhecidas indirectamente, por meio de raciocínios com
várias premissas. E quando os únicos raciocínios disponíveis para
conhecer essas verdades são raciocínios com pelo menos uma premissa
a
posteriori, essas verdades só poderão
ser conhecidas
a posteriori. MURCHO, D. (2002).
Essencialismo naturalizado. Coimbra: Angelus Novus, pp. 20-24.
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